Buscar   
  Home     Bibliografia     Artigos     Depoimentos     Fotos     Links     Contato
Sexta-feira, 10 de setembro de 2010 - 03:56   

Depoimentos

Os cartazes de festas das repúblicas esalquianas II

Luciana Cavalcante Pereira
O Arado - número 8 - novembro 2005


“Se aquilo que procuras não
encontrares dentro de ti mesma,
jamais o encontrarás fora de ti.”

Cara Maria Lídia, dedico esta carta a você que tão corajosamente abriu a discussão sobre Gênero em nosso jornal estudantil. Seu exemplo me deu coragem de também dar minha opinião. Devo dizer que discordo de você quando diz que os cartazes das festas esalquianas promovidas por repúblicas masculinas sejam produzidos para atrair o público feminino, por exemplo. Esta minha opinião e outras quero justificar abaixo. E no final se ainda discordarmos não é importante, pois o intuito é que pensemos.
Escrevo para nós mulheres esalquianas e meu objetivo principal é que juntas comecemos a refletir sobre nosso lugar nas festas das repúblicas da ESALQ, na nossa Escola de Agricultura e na sociedade e cultura em que vivemos.

Quando vemos num cartaz a exibição de um corpo feminino, ele está ali para atrair a atenção dos homens. Não se trata de uma mulher é apenas um corpo feminino, insinuando que naquela festa o rapaz irá encontrar uma “gostosa para satisfazer suas necessidades sexuais”. Conversando com um amigo ele disse: “Eu separo ficantes de amigas.” Como quem diz, não sou amigo das ficantes e nem fico com minhas amigas.” Mas qual a diferença entre uma e outra? Ambas não são seres humanos que devem ser respeitados e valorizados? Parece que não, não é mesmo?
As ficantes, as mulheres exibidas nos cartazes e mesmo as mulheres que estão circulando pelas festas não são vista como pessoas. Afinal, quantas vezes um rapaz desconhecido se aproxima querendo se tornar nosso amiguinho numa balada? Então o que somos nesses contextos?
Parece que somos vistas como objetos exibidos para escolha dos homens e que logo cumprirão a sua função de satisfazê-los. Perguntei a vários garotos por que as garotas pagam menos para entrarem nas festas. Alguns justificam que é porque as mulheres bebem menos. Na ESALQ acho que não. Já me disseram que é para nos atrair, o que concordo. Mas por que precisamos ser atraídas recebendo um desconto, cujo valor é embutido nos convites masculinos? E principalmente, quais são as conseqüências de sermos atraídas dessa forma para festas, recebendo um “desconto”, ou melhor, homens pagando uma parte do nosso convite para que entremos nas festas ?
Uma mulher a cada 15 segundos sobre violência física no Brasil (independente de sua classe social). Uma mulher trabalha em média 17 horas a mais que um homem por semana. Os salários femininos ainda são mais baixos. Pesquisas são feitas em países desenvolvidos (como EUA e Inglaterra) para provar a superioridade masculina. Somos tratadas como menos capazes que os homens, mesmo sendo em média mais dedicadas e possuindo melhores notas. A maioria dos estupros são executados por homens conhecidos de suas vítimas. E nesse contexto social somos pagas para irmos a festas para servirmos de companhia para os homens.
Mostrando esta linha de raciocínio para alguns colegas um deles me disse: “Tem mulher que dá brecha, vai.” Outro disse: “Qual a profissão mais antiga no mundo?” Querendo insinuando que era a prostituição, o que não é verdade. Outro já me disse: “A riqueza da mulher é sua beleza e a beleza do homem é sua riqueza.”
No entanto, o que mais me surpreende é que nós mulheres temos compactuado com isso. Achamos normal a exploração da imagem do corpo feminino. Achamos normal os cartazes da ESALQ. Achamos normal que os homens pensem e ajam dessa forma que descrevi acima. Achamos normal usarmos camisetas com mulheres semi-nuas, nuas ou gostosonas divulgando as festas esalquianas. E achamos normal a nossa presença nessas festas.

Quando falamos sobre assuntos como esse, o mais comum é ouvir: “essas são umas mal-amadas.” E infelizmente é verdade, pois a sociedade em que vivemos forma homens incapazes de amar as mulheres. E o que é pior, forma mulheres incapazes de se amarem. Afinal, quantas de nós estão esperando que um príncipe encantado venha salvá-las das suas “vidas miseráveis de gatas borralheiras”, se sentindo impotentes e fracas frente à realidade da mulher nessa sociedade? Quantas de nós por desilusões vividas não resolveram optar por satisfações momentâneas (fartamente oferecidas nas festas esalquianas)? Quantas de nós são capazes de se olharem no espelho e ao invés de encontrar um defeito no seu corpo que o desqualifique, pensam: “Eu tenho o poder de gerar vida e de alimentá-la”, e percebem como isso é grandioso?
E esta relação que temos com a Mulher na nossa sociedade é refletida na relação com a Natureza, pois é nas suas características femininas de geração e alimentação da vida que tem sofrido exploração e destruição.
Ao percebermos como somos oprimidas dentro dessa cultura ocidental dominante, nossa reação é com rancor e raiva associar a nossa condição à atitude do outro, que no caso é o homem. Sendo que primeiramente nós mulheres precisamos reconhecer e assumir a realidade em que vivemos, precisamos vencer os conceitos e padrões que nos foram passados sobre nós mesmas, para que possamos tornar a realidade melhor para nossas mães, para nossas filhas e para nós. Precisamos “ser a mudança que queremos ver no mundo”.





      

Universidade, Preconceitos e Trote




Trote na Esalq




 © antitrote.org