Entrevista com o Presidente da Comissão de Graduação da Esalq - USP
Reportagem O Arado - Abril 2005
O Arado – Qual a posição oficial da USP e da Esalq em relação ao trote?
Prof. Quirino – O trote foi proibido na USP, através da Portaria no 3154 de 27 de abril de 1999 do reitor Jacques Marcovitch, que em seu artigo 2º estabelece que “Não será tolerado qualquer tipo de manifestação estudantil que cause, a quem quer que seja, agressão física, moral ou outras formas de constrangimento, dentro ou fora do âmbito da Universidade”, e no parágrafo único desse artigo que, “A prática de tais atos será considerada falta grave, importando na aplicação de penalidades de expulsão ou suspensão previstas no regime disciplinar da Universidade, após processo administrativo, assegurados o contraditório e a ampla defesa”. Na Esalq, procura-se aplicar a portaria, coibindo-se ao máximo tais manifestações, dentro e, quando possível, fora do âmbito da escola.
O Arado – O conceito de trote é algo muito variável; ao proibir, o que a USP entende como trote?
Prof. Quirino – Pela portaria, trote é toda manifestação estudantil que cause, a quem quer que seja, agressão física, moral ou outras formas de constrangimento.
O Arado – O que é o Grupo Setorial Pró-Calouro e como funciona?
Prof. Quirino – O Grupo Setorial Pró-Calouro é um órgão da Prefeitura do Campus, que tem como finalidade assessorar o diretor da Esalq, nas medidas cabíveis para promover o trote cívico e coibir trotes abusivos. O Grupo deve promover ações que visem evitar que o trote ocorra, dentro e fora da Universidade, apurando os fatos, quando ocorrerem, através de sindicância, que deve sugerir a aplicação de punições aos responsáveis.
O Arado – Houve realmente a desistência de um estudante por causa do trote? Em quais circunstâncias isso ocorreu?
Prof. Quirino – Sim, um ingressante, que estava matriculado, não confirmou sua vaga, desistindo de ser aluno da Esalq, devido aos trotes que recebeu. Segundo a denúncia apresentada pela mãe do ingressante ao disque-trote às 10h03 do dia 03 de março de 2005, “o filho dela passou em Engenharia Agronômica e dentro do campus e fora dele, os veteranos fizeram os calouros beberem pinga com testículos de cachorro, barata, ‘pentelhos’ e abelhas, e os que se recusavam, apanhavam e eram obrigados a comer grama. Como seu filho se recusou a beber, foi despido e teve que correr nu pela cidade, além de terem raspado todos os pelos do seu corpo. O calouro ouviu que os veteranos eram da república Arado”.
O Arado – Quais as providências que o Grupo Pró-Calouro está tomando em relação a isso?
Prof. Quirino – Está sendo estudada a abertura de sindicância para apurar os fatos e punir os responsáveis.
O Arado – O trote que acontece dentro da Esalq está sendo filmado. O que será feito com esse material?
Prof. Quirino – A filmagem tem como finalidade evitar que o trote ocorra. As atitudes consideradas como trote estão sendo documentadas para serem utilizadas no momento oportuno, durante as sindicâncias.
O Arado – Como você enxerga o apoio que muitos professores da Esalq dão ao trote?
Prof. Quirino – Como o trote está proibido na USP, após a portaria do reitor, o apoio dado por alguns professores ao trote representa, no mínimo, um ato de rebeldia e, portanto, passível de punição pelas autoridades competentes da Universidade.
O Arado – Como era o trote na sua época de estudante?
Prof. Quirino – Quando eu passei no vestibular e iniciei o curso de Agronomia na Esalq, em 1972, o trote consistiu em raspar o cabelo, receber um apelido, que não pegou e eu nem me lembro mais qual era, usar o chapéu, o baile do bicho era no dia 31 de março, nada dessa bobagem de ir até o dia 13 de maio, que prejudica todo o primeiro semestre dos ingressantes. Como era ‘nativo’, não freqüentei as repúblicas enquanto bicho, portanto, não posso dizer o que acontecia nelas.
O Arado – Qual a sua visão sobre o trote que ocorre atualmente na Esalq?
Prof. Quirino – Pelos comentários que ouço, do que ocorre com os ingressantes nas repúblicas ditas ‘trotistas’, durante os chamados ‘ralos-monstro’, considero o trote praticado pelos estudantes da Esalq, perverso, humilhante, nojento, pouco criativo ecom forte conotação sexual, além de perigoso, pois durante os chamados ‘passeios’, os ingressantes podem ser picados por cobras ou se ferirem, sem possibilidade de socorro imediato. Tudo isso, por conta de ser estabelecida uma hierarquia militar nas repúblicas ‘trotistas’, que até pouco tempo, os ingressantes relutavam em aceitar a dos pais ou fizeram o possível para fugir de fazer o serviço militar. Acho isso incoerente, além de ser um ‘tiro no pé’, pois o número de ingressantes que estão indo para essas repúblicas ‘trotistas’ tem tendido a diminuir e, no futuro, muitas delas devem desaparecer ou serem reduzidas a um pequeno grupo.