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Sexta-feira, 10 de setembro de 2010 - 03:59   

Depoimentos

Depoimento aluna USP-Leste

Aluna USP-Leste


Sou aluna do campus da USP na Zona Leste e ingressei em 2006, o segundo ano de funcionamento da unidade. Os alunos que ingressaram em 2005 foram os primeiros a estudar na unidade, logo não foram recepcionados pelos trotistas, nem sofreram trote. Pelo contrário, receberam a carteirinha de estudante pronta no momento da matrícula de modo a comemorar a abertura da USP leste. Apesar disso, eles aplicaram trotes nos ingressantes de 2006. Como explicar este comportamento eu não sei. Certamente, não estavam repetindo o que aconteceu com eles.
Quando fui fazer minha matrícula, não tinha nenhuma intenção de me sujar. Eu queria entrar e sair do prédio sem nenhum problema. O que não aconteceu.
Assim que entrei no prédio, uma garota me perguntou qual meu curso e reclamou que eu não estava pintada. Educadamente, eu disse que nem o seria e continuei meu caminho. Mas ela não aceitou e chamou os colegas de meu curso para fazer uma emboscada.
Logo que entrei na sala de matrícula, havia uma aluna com uma lata de tinta e um pincel pintando uma ingressante que se matriculava na hora. O funcionário da USP que me atendeu disse à aluna da tinta: "Olha essa aqui ainda não foi zoada!”. Eu disse seriamente que não queria ser pintada e ele retirou o que disse. Mesmo assim ela se aproximou e falou: "Você não quer ser pintada, mas vai levar isso aqui...” enquanto aproximava um adesivo de minha testa. Desviei e disse que não. Ela então falou que só queria grudar o adesivo. Falei que na testa não e ela, finalmente, grudou em minha mão. Ironicamente, era um adesivo onde constava o telefone do disque-trote. Dizia que nenhum ingressante deveria se sentir constrangido a nada.
Um homem entrou na sala e pediu para ela fazer "isso" lá fora porque poderia sujar os documentos. Somente neste momento, ela foi embora.
Continuei minha matrícula e vi a primeira garota fora da sala cochichando e me apontando. Entendi que seria difícil sair de lá, mesmo assim tentei não ficar irritada. Logo apareceu uma outra aluna do segundo ano querendo saber meu nome, dizendo que seríamos colegas em tom de amizade. Achei que não havia problema em responder, pois ela parecia amistosa.
Quando saí, estava sendo aguardada por meus pais e por um grupo de aproximadamente dez pessoas munidas com potes de tinta (ou algo parecido), pincéis e potes de purpurina. Uma delas virou um pote de purpurina em meus cabelos. Eu empurrei um pincel, mas uma delas insistiu em tentar virar um pote de líquido verde em meus cabelos. Minha mãe perdeu a paciência e segurou a mão dela enfatizando que eu não queria. Enquanto me aguardava, ela já tinha avisado e mesmo assim eles insistiram.
Depois dessa cena fui embora. Registrei uma queixa no disque-trote, mas nunca obtive retorno.
Mais tarde, fiquei sabendo que alguns desses alunos estavam me insultando e fazendo apologia de práticas trotistas numa lista de discussão da internet. Diziam que eu seria excluída das atividades do curso e que eu seria agredida fisicamente. Além disso, provocavam com declarações como: "Esses bixos devem ser obedientes", "Somos conservadores e vamos cumprir a tradição de veterano zoando bixo".
O mais revoltante é que os ingressantes aceitam este tipo de tratamento. Alguns até se colocam em posição de submissão.
Depois que as aulas começaram, nunca mais vi essas pessoas. Algumas delas eu nem reconheceria. Fiz amigos em minha turma e nunca fui excluída de nenhuma atividade. Apenas faltei durante a primeira semana, quando aconteceram apenas palestras e trotes.
Apesar da recomendação em contrário, os alunos foram praticar o tradicional pedágio em uma rua próxima. Na segunda semana, as aulas efetivamente começaram e os trotes acabaram.
Fiquei sabendo de alguns rapazes chateados porque tiveram seus longos cabelos cortados à força. Mas foi a única reclamação que eu ouvi.
Agora que passou, posso dizer que sinto orgulho de não ter me submetido à práticas em que não acredito. Muitas pessoas me disseram que era melhor eu ter aceitado ser pintada do que sofrer represálias, mas eu discordo.
Na minha opinião, ter minha roupa suja por alguém é agressão. E eu não posso aceitar ser agredida. Quando eu estava na pré-escola não gostava de situações em que meu rosto era pintado. Mas eu me recusava a pintura e as professoras respeitavam. No momento em que ingressamos na Universidade, somos obrigados a participar de um trote e caso nos recusemos os alunos antigos agem como crianças mimadas ao ouvir um não de um adulto.
Além disso, coação e ameaça são crimes previstos no código penal. Só que a sociedade tende a tratar o trote como um ritual de integração. Bobagem. Os trotistas só querem canalizar o sadismo deles nesse momento em que são respaldados pela sociedade. Depois que as aulas começam, eles desaparecem. Não conheço ninguém que seja amigo íntimo de algum deles.
Eu jamais seria amiga de alguém que não respeitasse minha vontade.



      

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