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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010 - 20:49   

Depoimentos

Os cartazes de festas das repúblicas esalqueanas

Maria Lídia Romero Meira
O Arado - número 7 - outubro 2005

Eu estive pensando sobre uma coisa curiosa: quando uma república masculina dá uma festa, qual é o seu público mais almejado (considerando que os moradores das repúblicas masculinas da ESALQ, em geral, fazem questão de deixar bem clara sua opção heterossexual - pra não dizer sua homofobia)?
Mulheres, claro. Os moradores querem uma festa cheia de mulheres. Tanto que o ingresso feminino é sempre mais barato. Ou alguém chegou a pensar que isso é puro cavalheirismo?
Bom, feita esta constatação, vamos ao ponto: Por que praticamente todos os cartazes de festa de repúblicas masculinas trazem fotos/colagens/desenhos de mulheres com micro-roupas, mostrando o corpo, em poses insinuantes e sexys, ou ainda recortes de revistas pornográficas com poses explicitamente sexuais, sem esquecer das mulheres peladas?
Minha primeira impressão foi a de que os caras são ruins de marketing. Pois querem atrair mulheres com imagens que eles julgam atraentes, mas que não necessariamente são atraentes para nós.
Acredito que são poucas as garotas que se comprazem ao ver esses cartazes. Dentre as mulheres com quem conversei, nenhuma. Declaro: esses cartazes me ofendem. Por favor, não me tomem como uma puritana ou uma moralista. Isso seria simplificar as coisas. Além de ser uma boa desculpa pra quem quiser ignorar minha crítica.
As mulheres nos cartazes em geral seguem os estereótipos “gostosa”, “comedora”, “fácil”, “sedutora”. Os cartazes trazem letras dizendo que a festa vai ser ótima e trazem imagens dizendo que uma das coisas que fará a festa boa é a possibilidade de transar/ficar/agarrar uma mulher ou simplesmente olhá-la. Nós, garotas, somos colocadas como ingredientes do prazer masculino.
Dias atrás, vi um cartaz que não trazia tais estereótipos. A festa na Brejão era anunciada com a foto, ao fundo, de uma mulher muito gorda nua. Ora, o que é isso? Uma amiga minha disse: “uma mudança de estereótipo, uma mudança no que sempre acontece”. Outra amiga disse, mais acertadamente, penso eu: “significa que vai ter tanta cerveja que no fim da noite não importará mais se a mulher é magra, gorda, bonita ou feia”, pois a mulher na foto era o estereótipo do indesejável. Ou seja, não houve mudança nenhuma: uso da figura de uma mulher sem nenhum respeito pra divulgar uma balada.
Esse cartaz da mulher nua era altamente ridicularizante e humilhante. E quanto aos cartazes que trazem desenhos bonitinhos de mulheres em micro-roupas, sempre próximas a um homem, como o da Carnapique que está por aí? Ou o da Última Barca do ano passado, com a frase “O melhor movimento feminista (ou feminino, não me lembro) ainda é o dos quadris”? Será que estes são menos ofensivos? Ofendem de formas diferentes. Ou alguma garota se sentiu elogiada ao dizerem que preferem sua bunda às suas idéias? E esta frase vai além, pois implicitamente diz que as mulheres fariam melhor ficando quietas, no seu canto, enquanto servem à satisfação masculina, ao invés de se manifestarem sobre qualquer coisa.
Voltando à questão público alvo x cartaz: Penso que isso não passa por um raciocínio marketeiro, na verdade. Esse jeito de fazer cartaz parece ser associado a pensamentos que podem ter passado pela cabeça de muitos que lêem esse artigo: “Ora, mas é só a divulgação de uma festa”. Ou ainda: “Há imagens de mulheres peladas ou quase peladas em todos os lugares, nos comerciais de cerveja, nas novelas...”. Grande conformismo, péssima justificativa.
Esse jeito de fazer cartaz deixa transparecer a idéia de que as mulheres não se importam em ser tratadas assim, xulamente, estereotipadamente. Ou pior, se as mulheres se importam, não deveriam se importar, pois é tudo “brincadeira” (de mal gosto, eu completaria). Este argumento é horrível, pois despreza o ponto de vista, o desqualifica e coloca que é válido “brincar” dessa maneira.
Eu entendo que depois de ver milhares de cartazes desse tipo nós nos acostumemos, fiquemos indiferentes. Mas eu vejo que essa banalização contribui para que a atitude se torne algo “normal” e a partir disso, se repita sem nenhuma reflexão. Com este artigo, espero ter provocado alguma.




      

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