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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010 - 21:02   

Artigos

Trote: o ralo monstro

Antônio Ribeiro de Almeida Júnior; Oriowaldo Queda
Jornal de Piracicaba

O ambiente lembra o de um campo de concentração ou o de uma academia militar. No quintal de uma das repúblicas “tradicionais” da ESALQ, cerca de 50 alunos de primeiro ano são reunidos, vindos de outras repúblicas “tradicionais” ou capturados nas ruas de Piracicaba pelos “veteranos”. Os “bichos” são obrigados a ficar nus e a tomar grandes quantidades de bebidas alcoólicas. Auto-intitulados “doutores”, os “veteranos” gritam ordens e as impõem pelas ameaças e pela violência (tapas, expulsão das repúblicas etc.), numa reprodução caricata das relações entre sargento e recruta. O próprio termo “veterano” é definido pelo Aurélio como “antigo no serviço militar”. Enquanto realizam exercícios físicos, os “bichos” são coagidos a repetir inúmeras vezes as afirmações feitas pelos tais “doutores”. Estas afirmações fazem parte do discurso de legitimação do trote, como por exemplo: “que a tradição é boa”; que o “trote produz amizades”; que os “bichos são escrotos” e “que quem não leva ralo não ama a ESALQ”. Trata-se de uma versão primária de “lavagem cerebral”. Mas, as coisas não param por aí, outras práticas perversas têm lugar.
O reforço
Os “doutores” preparam uma mistura não tóxica, segundo eles, mas de péssimo paladar (por exemplo, borra de café, muito sal, pimenta, vinagre etc.). Os alunos de primeiro ano são colocados em fila e, um após o outro, obrigados a provar do “reforço”. Quando, finalmente, um deles não agüenta mais e coloca tudo para fora, seu vômito é incorporado à mistura que será dada aos demais. O resultado é que todos acabam vomitando.
A bochechinha
Um dos “doutores” pega um copo de cerveja ou de outra bebida qualquer e coloca um pouco na boca, fazendo um bochecho. Depois, devolve o conteúdo ao copo e o passa para o próximo que repete seu ato, até chegar ao final da fila. Um aluno de primeiro ano é escolhido para beber o que restou no copo.
O pascu
Entre os participantes do ralo monstro, alguns alunos do primeiro ano são escolhidos para o “pascu”. Eles são separados dos demais, imobilizados à força e são ameaçados de terem o ânus injetado com creme dental. Em alguns casos, tais ameaças são cumpridas.
O canavial
O ralo monstro prossegue pela madrugada com os alunos de primeiro ano sendo levados dentro de carros com as cabeças abaixadas, sem saber para onde estão indo, e abandonados a 10 ou 15 km da cidade. Geralmente, isto ocorre em meio a um canavial. Estes alunos estão embriagados, provavelmente exaustos das torturas, humilhações e exercícios contínuos a que foram submetidos. Eles estão também muito sujos, pois, foram obrigados a rastejar e a rolar pelo chão durante o ralo monstro. Nestas condições, eles voltam a pé para a cidade, muitas vezes, direto para a sala de aula para realizar provas.
***

Entre as atividades do trote na ESALQ, o ralo monstro ocupa um lugar ímpar pelo número de participantes e extensão das perversidades. Nele, o prazer mórbido obtido pelas práticas sádicas atinge seu ponto culminante. Para os homens, o ralo monstro ocorre semanalmente durante o período entre o início das aulas e o 13 de maio. Para as mulheres, ele acontece no mesmo período, mas com uma freqüência mensal. Neste caso, algumas das práticas são um pouco diferentes, mas igualmente humilhantes e perversas.
Sabe-se que o trote envolve sadismo. Até aqueles que defendem algumas de suas formas admitem isto. Como podemos perceber na entrevista com Içami Tiba para a revista Época de 01/03/99, página 43:
“Época: É bom existir este ritual (trote)?”
“Tiba: Sim, é bom. É aquele momento no qual o calouro fica como que embriagado pela euforia e faz coisas que normalmente não faria. Já o veterano extravasa suas neuroses e, em certos casos, chega até a dar vazão ao sadismo.”
O trote pode parecer parte da natureza das coisas, mas ele é uma construção social perversa que expressa as mazelas de nossa sociedade. Certamente, a má índole de muitos agricolões é reforçada pelas situações vividas durante o trote. É preciso que as autoridades, os professores, os funcionários, os pais e os cidadãos tomem providências para impedir que o ralo monstro e o trote continuem existindo e que seus organizadores permaneçam impunes. E, muitas vezes, tentando ridicularizar ou mesmo ameaçando aqueles que criticam o trote. Fingir que o problema não existe não vai resolver nada. Deixar aos alunos a decisão sobre como lidar com o assunto também não é uma boa solução. É preciso educá-los para que se tornem bons cidadãos, conscientes de suas responsabilidades e direitos.



      

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