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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010 - 21:03   

Artigos

A Inteligência Trotista

Antônio Ribeiro de Almeida Junior; Oriowaldo Queda
O Arado - abril de 2005

Muitas vezes, os trotistas são alunos das mais respeitadas unidades da Universidade brasileira. Este fato leva-nos a supor que eles são inteligentes. Mas, é preciso qualificar esta “inteligência” e entendê-la de modo apropriado. Alguns trotistas têm boas notas, porém, na média, seu desempenho acadêmico é notoriamente fraco . É óbvio que a dedicação à academia é incompatível com maratonas de festas regadas a bebidas alcoólicas. O fraco desempenho acadêmico não decorre de falta de inteligência, mas de uma acentuada dedicação às atividades trotistas.
Eles julgam ter alguma “criatividade” na elaboração dos trotes e um certo “senso de humor”. Esquecem-se ou desconhecem o fato de que, em geral, suas atividades repetem barbaridades cometidas no passado e que seu “humor” é carregado de preconceitos. Sem dúvida, há algo de teatral nas atividades trotistas. Talvez esta seja uma das razões do fascínio que elas exercem sobre alguns ingressantes.
O problema é que a “inteligência” trotista é perversa. Ela não mede os efeitos de sua “esperteza” sobre as pessoas ou sobre a instituição. Em um livro a respeito da Esalq, há muitos exemplos desta “esperteza”. Em um dos casos contados, um grupo de trotistas é identificado pelo roubo de marrecos, que faziam parte de um experimento científico. Para se safar de qualquer punição, eles apelaram para os sentimentos do diretor da instituição que, por coincidência, fazia aniversário no dia em que foram chamados para conversar sobre o roubo. Na hora da conversa, chegaram cantando parabéns e acabaram desarmando a disposição do diretor.
A história é contada como uma glória e uma proeza da “inteligência” trotista. O que esta e muitas outras histórias revelam? Entre outras coisas, ela revela que atos condenáveis, envolvendo a destruição de trabalhos experimentais que demandam recursos públicos e a dedicação de pesquisadores, podem ficar impunes, desde que seus autores sejam suficientemente “inteligentes”. Esta história ensina ainda que podemos utilizar os sentimentos alheios para obter sua omissão ou conivência com atos ilícitos. A manipulação dos outros aparece como ato de “inteligência” e não como ação inescrupulosa.
Em outras ocorrências, “vândalos cortaram árvores raríssimas” para transformá-las em árvores de natal (Memorial de Piracicaba, janeiro de 2003, fascículo 9, p. 206). Experimentos com morangos, de outro professor, precisaram ser repetidos várias vezes, pois os trotistas roubavam seus frutos. Enfim...
A “inteligência” trotista não é aberta à argumentação que questione o trote. Ela é instrumento para a imposição deste. Não apenas sobre os alunos, mas também sobre o restante da instituição. Para isto, os trotistas mais radicais não hesitam em utilizar mentiras, manipulações, ameaças e tudo o mais que sua “inteligência” possa transformar em meio para obter o controle sobre a situação e sobre as pessoas.
Ao que parece, a imaginação subjacente é o de uma sociedade injusta e imutável. Uma sociedade onde vencem os mais violentos e mais “espertos”, os que buscam “levar vantagem em tudo”. Uma sociedade comandada pelos preconceitos e pelos preconceituosos. Neste sentido, as formas de pensar dos trotistas refletem a violência geral existente na sociedade brasileira. Eles estão convencidos que as atividades trotistas são perfeitamente “normais”, não se dando conta da extensão da violência embutida no trote nem do caráter inaceitável desta.
A banalização da violência e a indiferença ao sofrimento alheio fazem parte do currículo que os brasileiros recebem durante a infância e a juventude. Não é de estranhar, portanto, que ao chegar à universidade, os jovens considerem natural a violência do trote e até se divirtam com ela. Não os educamos para que se comportassem de modo mais humano. Isto não desculpa o trote ou os trotistas, mas lança luz sobre as dimensões do fenômeno que nos propomos a combater.
Os trotistas são a conseqüência de um processo educacional desumanizador que ocorre dentro e fora da escola. Muitas vezes, são os próprios pais que estimulam os comportamentos competitivos e instilam os valores que desumanizam, os preconceitos e outros elementos que se manifestam no trote. A mídia e outros agentes sociais contribuem para a existência destes comportamentos violentos. O pior é que, ao entrar na universidade, este processo desumanizador não é questionado, mas reforçado, já no ingresso, por meio do trote. Reconduzir a “inteligência” a finalidades úteis à sociedade envolve repensar os processos educativos, dentro e fora da universidade. Envolve assumir a tarefa educativa num sentido bem mais amplo do que a mera transmissão de conhecimento técnico.



      

Universidade, Preconceitos e Trote




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