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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010 - 21:01   

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Trote: instrumento de integração ou fenômeno psicopatológico - Suely Ongaro

Suely Ongaro
Tempo Médico - número 4 - Maio/Junho - 1991
(Revista dos alunos da Unesp - Botucatu)

Na busca da identidade o adolescente recorre, como comportamento defensivo, à busca de uniformidade que pode proporcionar a segurança e estima pessoal. Aí é que surge o espírito de grupo. O que por sua vez é um passo para que ele assuma depois a sua identidade adulta. Na entrada para a universidade, o grupo é importante porque é um marco entre os estudos secundários e o mundo adulto com novas obrigações e responsabilidades, para as quais o adolescente ainda não está preparado e então ele recorre ao grupo buscando reforço.
Na adolescência normal, podem acontecer manifestações de conduta que são semelhantes às da psicopatia, com a diferença que não são cristalizadas e permanentes, mas transitórias e circunstanciais. Uma destas condutas é o sado-masoquismo que implica em usar e abusar das necessidades dos outros para satisfazer suas próprias necessidades.
Segundo a psicanálise, todos nós temos uma angústia que é chamada angústia de castração, que se constitui por ocasião dos cinco anos de idade quando emerge o complexo de Édipo. Esta angústia pode posteriormente transtornar as relações interpessoais e mesmo a obtenção do prazer sexual. Há vários jeitos de lidar com esta angústia e um deles é pelo sadismo, que consiste em torturar alguém para tranqüilizar o medo da castração. O exemplo clássico é dos adultos homens que torturam um menino pequeno ameaçando-o de lhe cortar o pênis, resultante do medo deles próprios de serem castrados. Isto porque quem pode fazer a outras pessoas aquilo que teme que lhe seja feito já não precisa ter medo, de modo que tudo quanto aumenta o poder ou o prestígio do indivíduo pode servir para tranqüilizar a sua angústia.
O ponto de partida do desenvolvimento do sadismo é esta idéia: “Antes de poder desfrutar da sexualidade tenho de me convencer de que sou forte e poderoso.” O tipo ameaçador que mostra figuras pornográficas ao parceiro inocente tem prazer com a fraqueza do outro, porque isto significa que não precisa ter medo dele. Bloqueado o medo ele pode desfrutar de outros prazeres.
O ato sádico não é só a execução de um dano moral ou físico. Ele pode ser apenas a ameaça do dano. A pessoa sádica pode aliviar sua tensão só de ver o outro tremer de medo.
O sadismo também tem a finalidade de encobrir situações em que a pessoa sádica foi inferiorizada.
O princípio básico é o seguinte: aquilo que a pessoa já sofreu ou tem medo de sofrer passivamente, ela faz ativamente com outra pessoa para aliviar-se deste medo. Quem consegue ameaçar ativamente outras pessoas não precisa ter medo de ser ameaçado. O amor das crianças pelos animais é o desfecho de antiga fobia de animais. Identificando-se com o animal “agressivo” a criança sente-se participante ela própria da força do animal. Agora o animal já não mais a ameaça, mas está à disposição dela para ameaçar outros.
Por que os sádicos agem assim? Porque têm uma insuficiência narcísica, segundo a Psicanálise. São pessoas que se amam pouco e precisam muito obter estima dos outros para aumentar a auto-estima. É o sofrimento do outro que vai possibilitar o seu prazer porque libera da culpa e do medo. É aí que o sádico se trai porque se supõe independente, mas, na verdade, ele tem uma dependência profunda em relação à vítima. Pela força ele quer encontrar o amor. O modelo deste narcisismo é o rei Frederico Guilherme da Rússia que costumava bater nos súditos berrando: “não tens que me temer, tens que me amar”.
Mas o contrário também pode acontecer, ou seja: as tendências destrutivas mudam de direção e voltam-se contra a própria pessoa. Temos o masoquismo também originado pela angústia e pelo sentimento de culpa que impossibilita a chegada ao prazer senão passando antes por uma situação de passividade e sofrimento.
O objetivo pode ser obter proteção quando se acredita que o agressor é muito poderoso e o protegerá. A pessoa não acredita na auto-proteção. Mostrando-se fraco e pequeno ela obtém a misericórdia do protetor. E quando a pessoa se sente muito abandonada é tranqüilizador pensar que ela se une a alguém forte ainda que seja pelo sofrimento. O sacrifício significa a tentativa de participar da grandeza e da onipotência do outro.
Tudo isso pode acontecer numa situação de brincadeira como o trote. As crianças usam muito o jogo e a brincadeira para terem o domínio de uma situação que nos seus momentos com adultos elas não têm. De frustradas e dominadas, elas passam a frustradoras e dominadoras e temos então os meninos batendo no cavalo e as meninas batendo nas bonecas.
O trote poderia ser um rito de passagem como existe nas sociedades primitivas? Poderia ser mas não é.
Nas sociedades primitivas sempre o rito de passagem usa o corpo dos iniciados para imprimir suas marcas. O ritual é cruel e deve ser suportado com silêncio. Um homem iniciado é um homem marcado pela tortura, e com a marca ele não esquecerá o segredo que lhe foi confiado pela tribo que é o da igualdade entre todos. O jovem índio cala e consente na medida em que passa a partir daí a ter papel no grupo que é o de membro da comunidade com todos os direitos de guerreiro. A lei primitiva cruelmente ensinada é uma proibição à desigualdade que todos se lembrarão.
Não é bem isto que se vê na sociedade moderna onde a rivalidade predomina e os mais velhos têm dificuldade em aceitar os jovens como iguais. O veterano ameaça o calouro de marginalização social na comunidade acadêmica se ele não aceitar o trote. O calouro submisso terá posteriormente a solidariedade do veterano que o iniciou, em sua tarefa de integração ao grupo?
O trote foi uma forma de divertimento muito usada nos carnavais quando estes eram mais pacíficos. Um grupo de mascarados envolvidos num lençol, disfarçando a voz, estabelecia com conhecidos, diálogos indiscretos em torno de segredos reais ou imaginários da pessoa abordada. A farsa deixava a vítima em apuros até que tudo terminava em confraternização pela identificação do mascarado.
A questão da identidade se coloca tanto para o calouro como para o veterano. Dizem os calouros que os veteranos só dão trote quando estão em grupos. É compreensível desde que se sentem mais fortes. O calouro está só, não conhece ninguém e quase nem se reconhece pois foi despojado até do seu próprio nome. Ganhou um apelido que deve incorporar, que não o enaltece e que muitas vezes o ridiculariza desde que o apelido é muitas vezes uma caricatura. Ele tem estas questões: “Quem sou eu hoje?” “Eu sou como você?”
“Eu sou como todos?” Corre o risco de ficar mastigando estas questões até se formar, visto que não é apenas sua situação que é difícil, mas de toda a sociedade que é incompreensiva e hostil para com quem transformá-la. A crise de identidade não é só do adolescente mas de todos numa sociedade instável em que o acúmulo dos meios de destruição aumentam o nível de tensão e de ansiedade. Quem é o homem moderno? Aquele que se queixa de insatisfação difusa, que acha sua existência sem finalidade, que tem uma sensação de vazio interior. Ele busca auto-estima e apoio. Que a sua entrada na universidade não piore esta situação.



      

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