Trote: uma forma institucional de glorificar a violência
Antônio Ribeiro de Almeida Jr.
De modo regular, contínuo, persistente, o trote causa danos a alunos e alunas que ingressam nas Universidades brasileiras. É preciso explicar o que estou chamando de danos, pois em relação ao trote, esta palavra pode ser equívoca. Há vítimas do trote que são gravemente feridas mental e fisicamente. Estas vítimas são mais numerosas do que se pensa e sua existência é um motivo fundamental para se exigir que o trote seja extinto. Mas, dizem os que defendem o trote, elas são algo excepcional resultado de desequilíbrios individuais, de excessos que não correspondem ao espírito do trote.
Depois de estudar o trote, por vários anos, não acredito que as pessoas vitimadas no trote sejam uma exceção, resultado de problemas individuais das próprias vítimas ou de seus algozes imediatos. Embora este fator individual possa ter algum valor explicativo em certos casos, para entendermos o trote, precisamos pensá-lo como fenômeno coletivo. O trote diz respeito a uma determinada situação cultural na qual abusar do outro é transformado em algo engraçado. O outro pode ser colocado como objeto de diversão, de chacota, de ridicularização, de violência. É esta situação cultural que propicia a expressão livre dos desequilíbrios individuais
Mas, os danos causados pelo trote não se restringem às pessoas que são institucionalmente identificadas como vítimas do trote. É bom dizer que as instituições fazem de tudo para não identificar as pessoas desta forma. Em muitas situações, as instituições de ensino superior tentam abafar ou minimizar os problemas decorrentes do trote, devido ao desgaste da imagem institucional.
Falo de danos menos espetaculares, menos visíveis, mas talvez ainda mais graves. Os alunos aprendem a beber e a usar outras drogas, a humilhar, a manter um clima de atrito com seus colegas de outros cursos, a participar de máfias profissionais e a hostilizar as populações das cidades que os recebem. Eles se tornam mais preconceituosos e expressam isto com maior insensibilidade. Eles naturalizam as hierarquias, as rivalidades, a competição desenfreada e se tornam menos preocupados com o comportamento ético. Coletivamente, eles aprendem a mentir, a se comportar cinicamente. Tudo isto pode resultar em verdadeiras quadrilhas de nível superior.
As Universidades querem que o trote aconteça. Elas vêem o trote como algo importante e ajudam a não pensar seriamente sobre o trote. Muitos professores, funcionários e dirigentes das Universidades foram ou são trotistas e percebem o trote como algo positivo. Estas pessoas usam os alunos trotistas para promover seus interesses nas lutas políticas que ocorrem dentro da Universidade. Esta é a causa fundamental da continuidade do trote.
A instituição distribui distinção social aos seus membros que, em troca, enaltecem a instituição. Todos os que estão fora, os que não passaram no vestibular e pelo trote, são menos dignos, hierarquicamente inferiores, merecendo apenas desprezo ou ordens. A instituição aprecia este enaltecimento, seja ele merecido ou não.
Enquanto tudo isto ocorre, os pesquisadores da educação superior preocupam-se com outros assuntos, muito mais importantes de sua perspectiva. Penso que o trote é um assunto crucial para o debate sobre a formação recebida na Universidade. Sem este debate, o trote continuará a formar opressores para um sistema produtivo opressor e quase todos verão isto como algo absolutamente natural. Se queremos outra Universidade, mais responsável em relação aos problemas sociais, precisamos desafiar o trote e os trotistas, sejam eles alunos ou dirigentes universitários.