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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010 - 20:53   

Artigos

Pedágio

Antônio Ribeiro de Almeida Júnior; Oriowaldo Queda
Trote na Esalq

O pedágio é uma prática antiga que foi sofrendo modificações durante os anos, mas manteve dois elementos básicos: a coleta de dinheiro e o seu uso para comprar bebidas. É o que podemos perceber no seguinte texto:

“Nos áureos tempos da velha faculdade de Direito do Largo de São Francisco, em São Paulo, os calouros eram levados, após um copo de cachaça, aos jardins da Praça Ramos de Azevedo (no centro), onde jogavam futebol, descalços, tendo um coco no lugar da bola. Depois, saiam pedindo dinheiro a transeuntes e motoristas – dinheiro que iria sustentar libações etílicas de veteranos babacas que os acompanhavam. Para a grande maioria, nada grave: tudo serviria como reminiscência para contar aos netos.” (José Roberto Nassar, Época, 01/03/99, p.7)

Atualmente, para realizar o pedágio, os alunos de primeiro ano são levados, devidamente pintados e quase sempre sujos, a uma via pública de grande movimento. Nela, os trotistas escolhem um semáforo e induzem os novos alunos a pedir dinheiro aos motoristas. Este dinheiro será empregado para comprar bebidas e, às vezes, comida para os trotistas e, talvez, também para os alunos de primeiro ano. Trata-se de uma prática bastante comum e tida, por muitas pessoas, como relativamente inofensiva, como relatado abaixo:

“Algumas brincadeiras são até aceitáveis como, por exemplo o pedágio, que proporciona um contato direto com a população e mostra como é gratificante ser um aluno da ESALQ pelo carinho das pessoas.” (Aluna da ESALQ - USP)

Contudo, esta prática já foi causa de atropelamentos, de atritos com motoristas e com as autoridades responsáveis pelo trânsito, incomodados pelas ações dos trotistas. É ainda chocante ver alunos, em geral oriundos de famílias abastadas, disputando esmolas com pessoas realmente pobres que pedem nos semáforos da cidade. Em entrevista a Mariana Ferreira (Jornal da USP 27/10 a 02/11/97 p.9), o então vice-diretor da FAU - USP, fez os seguintes comentários:

“Há um paralelismo entre o pedágio e o pedinte que acho muito constrangedor. Na mesma esquina, o que se vê é o confronto de uma realidade social. De um lado, a miséria e de outro, uma condição que poucos conseguem atingir: a de estudante universitário.”

Na mesma matéria, Mariana Ferreira ressaltou que:

“O contraste social atingiu, em março, proporções maiores na esquina da Avenida Brasil com a Rua Argentina, nos Jardins. Um grupo de pedintes da região invocou com a concorrência dos calouros de várias escolas e, sem pensar duas vezes, partiu para cima da calourada. Um deles reclamava: ‘primeiro os ambulantes, depois os trombadinhas e agora essa garotada rica.’”

Como várias outras atividades do trote, o pedágio é entendido pelos trotistas como um treinamento que desinibe o aluno de primeiro ano, pois o obriga a se colocar em contato com pessoas estranhas. Tudo isto ocorre numa situação bastante desconfortável para os alunos e alunas de primeiro ano.
Para os alunos, imbuídos do espírito de autocongratulação, o que importa é que eles venceram a disputa para entrar na universidade. Por isto, o corte de cabelos, a pintura do corpo, o apelido, o chapéu e o pedágio são formas de se vangloriar, são formas de demonstrar o próprio mérito, sabendo que a sociedade também reconhecerá este mérito. Um trotista afirma:

“O ritual do trote é algo que sempre marcou a entrada dos calouros na universidade, com clima festivo e com rituais sempre sonhados e desejados por muitos. Quantos em uma sala de aula de cursinho não gostariam de começar o ano com a cabeça raspada e com siglas da USP, UNESP, UNICAMP, entre outras, na testa e no cabelo. Senão todos, é a grande maioria. Por esta visão, o trote é o símbolo da vitória, do objetivo alcançado, do início do sonho em estudar na faculdade.” (Aluno da ESALQ-USP)

Pelo menos o aluno reconhece que talvez não sejam todos os alunos que pensam desta forma. O testemunho de Luciane Mendes publicado pela revista Veja (07/03/90 p.110) demonstra a existência de formas de pensar divergentes sobre o trote:

“É incrível, mas o sonho de entrar num curso superior, esse sonho tão comum aos jovens, é hoje um pesadelo. A euforia deu lugar ao medo. A alegria, à ameaça física. Se passar no vestibular é sinônimo de terror e vergonha, resultado do trote, prefiro conviver com a minha ignorância.” (citado por Vasconcelos 1993:16)

Outros trotistas pensam o trote como uma forma de quebrar o orgulho do ingressante como podemos constatar no texto abaixo

“O trote serve para baixar o orgulho da conquista. (Aluno da ESALQ-USP)

Como vemos, o sentimento de mérito alcançado pode ser tal que os próprios trotistas percebem a necessidade de moderação. Em entrevista a Roberto C. G. Castro, Sueli Darmegian, do Instituto de Psicologia da USP, interpreta a situação da seguinte forma:

“Nas situações em que o ideal de ego se aproxima do ego, ocorre uma fusão entre ambos e o resultado é uma ‘euforia maníaca’, em que a pessoa perde a noção de realidade. ‘Passar no vestibular da melhor universidade do Brasil é, para o calouro, a conquista do seu ideal de ego’, explica Sueli (...) Sem noção da realidade, ele se submete então a todo tipo de barbarismo, que considera normal. (...) Toda a euforia do aluno por passar na USP precisa ser canalizada para práticas que beneficiem todo o grupo e a sociedade.” (Jornal da USP, 17 a 25/05/99, p.11)



      

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