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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010 - 21:00   

Artigos

Apelidos

Antônio Ribeiro de Almeida Júnior; Oriowaldo Queda
Trote na Esalq

O apelido é uma marca, às vezes indelével, que o aluno receberá dos trotistas ao chegar à muitas unidades das universidades brasileiras. Isto ocorre durante a matrícula ou no primeiro dia de aula. Quando perguntamos ao trotista esalqueano qual o seu nome, ele invariavelmente responderá pronunciando seu apelido. Para conhecermos seu nome, registrado na certidão de nascimento, precisaremos perguntar por seu apelido. Assim, seu nome de registro passará a ser seu apelido. Logo depois, este aluno receberá um chapéu de palha, com este apelido escrito em letras enormes. (ver o relato no início deste capítulo)
Os apelidos têm como uma de suas fontes inspiradoras os preconceitos raciais, os comportamentais, os de gênero, os relativos à aparência física, etc. No caso dos preconceitos étnicos/raciais, dois trotistas eméritos citam os seguintes exemplos:

“Lumumba, Gringa, Carcamano, Alemão, Turco, Samurai, Jacó.” (WEDEKIN & RODRIGUES 2001:17) .

Da mesma forma preconceituosa, as aparências físicas são utilizadas para gerar apelidos. Assim,

“(...) uma boca muito grande dá origem ao Caçapa; os pés para dentro criam o Periquito; o tique nervoso provoca o Dois Tempos; o muito feio é Alien ou Quase Lindo e assim por diante.” (WEDEKIN & RODRIGUES 2001:17)

Mas, não é apenas na ESALQ que estes preconceitos são empregados como inspiração para os trotistas atribuírem apelidos. Esta é uma prática que ocorre em muitos lugares. Na Escola de Medicina da Santa Casa de São Paulo, tais preconceitos deram origem ao apelido do aluno que, mais tarde, morreria como ingressante da Faculdade de Medicina da USP. O trecho a seguir revela outros usos do apelido e do preconceito:

“Os amigos (sic) da Santa Casa o apelidaram de Torto, pelo andar esquisito... Até lá (data em que o delegado deveria entregar seu laudo), ninguém saberá por que o apelido de Edison fez jus ao próprio destino” (RAMOS e outros, Época, 01/03/99, p.42)

A afirmação estaria sugerindo que o destino do aluno não se deveu ao trote e à violência dos trotistas, mas estava inscrito em sua própria aparência? Com seu refinado espírito, os trotistas teriam apenas captado este destino e o transformado em um apelido? Os repórteres da revista Época estariam sugerindo que, por ter o “andar esquisito”, ele seria assassinado? Como na mitologia, sugere-se que o aluno morreu por causa da sua aparência ou que esta meramente refletia a sua trágica essência anímica:

“Uma das principais formas de contar as histórias que transmitem a cultura é empregar imagens de corpos humanos. Na verdade, é praticamente impossível contar tais histórias sem falar dos corpos e de suas aparências. Os personagens são sempre altos ou baixos; magros ou gordos; belos ou horripilantes; jovens ou velhos. Muitas vezes, essas características corporais antecipam e compõem os destinos dos personagens. Criaram-se assim mitos em torno das aparências.” (ALMEIDA JR. 2001:56)

Mas, depois do laudo do delegado, ficamos sabendo a razão da morte do estudante, nas palavras de Renato Pompeu:

“(...) o brasileirinho Edison, como se afirmou no primeiro parágrafo, morreu de trote.” (Roberto Pompeu de TOLEDO, Veja, 21/04/99, p.154)

O estudante morreu de trote e o seu apelido, longe de ter sido engendrado por místicos poderes divinatórios, fez parte deste trote. E, como o artigo da revista Época demonstra, este apelido continuou perseguindo-o, mesmo depois de sua morte.
é fácil perceber que os trotistas despendem muita energia e muito tempo para criar e impor os novos apelidos. Antes de atribuí-los, eles precisam saber daqueles já existentes na Escola, para evitar repetições. Para tanto, eles designam:

“Uma comissão de recepção , composta geralmente por veteranos com refinado espírito de observação , bem humorados e às vezes muito críticos, sempre acha alguma característica inspiradora de apelido do pobre bicho (...)” (WEDEKIN & RODRIGUES 2001:17)

As marcas comerciais de produtos e empresas também são fontes de apelidos. É possível encontrar alunos identificados por Chokito, Caterpilar, Bombril , etc. Há também apelidos que fazem referências a fenômenos da natureza ligados à agricultura (Verão, Estiagem, Outono...), a produtos químicos, instrumentos ou processos utilizados em laboratórios (Fenol, Estufa, etc). Outros recebem, como apelidos, nomes de doenças, de pragas ou de processos orgânicos como apelidos (Cancro, Piolho, Pulgão, entre outros). Existem aqueles que recebem o nome de animais ou de plantas, revelando um processo de desumanização (Macaco, Tatu, Batatinha, Avenca, por exemplo). A religião e o preconceito religioso também podem ser fontes para apelidos. Assim, um aluno, também pregador evangélico, passou a ser o Bíblia. Por fim, muitos recebem nomes com uma conotação sexual explícita (Xota, Koño, Fekal, Tôdano, Noku, Rapidinha, Txupo estão entre estes).
Os problemas causados pelos apelidos são reconhecidos pelos trotistas mais ardorosos, como podemos constatar na citação abaixo:

“É claro que certas criações não são muito simpáticas, podem ser ofensivas e acabam não pegando. Mas, se o bicho se revoltar quando recebe um desses apelidos indesejáveis e criar caso com os veteranos, pobre dele: nunca mais será conhecido pelo verdadeiro nome. Está batizado para sempre. Em muitos casos, os apelidos seguem o infeliz pelo resto da vida.” (WEDEKIN & RODRIGUES 2001:18)

Os relatos acima são indicações mais do que suficientes do processo de despersonalização a que os ingressantes são submetidos desde o primeiro momento de sua vida na universidade. Esta despersonalização é a porta de entrada para outras tentativas de se obter a submissão dos novos alunos.
Como afirma Contardo Calligaris (2000), não é necessariamente por chegar a certa idade que a adolescência terminará. Em alguns casos, ela nunca terá fim. Portanto, não devemos estranhar que ao chegar à universidade, grande parte dos alunos não tenha se definido completamente em suas opções ideológicas e por um estilo de vida, pois o final da adolescência é um complexo período de transição. O nome e também o apelido, certamente, afetam a auto-imagem. Ser chamado, às vezes pelo resto da vida, por um apelido muito negativo pode trazer conseqüências imprevisíveis. São inúmeros os casos de profissionais que se rebelaram, rejeitando seus apelidos. Muitos chegaram a cortar amizades com aqueles que insistiam em chamá-los pelos apelidos. Mas, entre os trotistas, o apelido recebe uma valorização que se estende para a vida profissional, como podemos perceber no texto abaixo:

“Hoje trabalho na área de marketing da Massey Ferguson. Significa que eu viajo o Brasil todo. Sabe como sou conhecido na empresa????.....KCUETI, isso mesmo. (...) Na sede da empresa em Canoas/RS, sempre ligam atrás do KCUETI e raríssimas vezes atrás do Alberto. Essa é a minha identificação pessoal.” (Ex-aluno da ESALQ - site: http://kzona.hypermart.net)

A identificação com um apelido de conotação negativa impressiona. Num dia festivo, como o da entrada na universidade, aquele que recebe o apelido pode não estar consciente destas possíveis conseqüências. Devemos considerar a advertência feita pela Autora do livro O assédio moral:

“Como vimos nos casos clínicos, um dos procedimentos perversos habituais é ridicularizar o outro com um apelido que cause riso e que parta de um defeito ou uma dificuldade: a gorda, o veado, uma grandissíssima lesma, o paspalhão... Estes apelidos, mesmo sendo ofensivos, são muitas vezes aceitos pelos que estão em torno, que riem deles e se tornam cúmplices. Todos os comentários desagradáveis causam mágoas que não são compensadas por demonstrações de gentileza. E a própria mágoa que deles resulta é reapropriada pelo parceiro (pelo trotista?) que a transforma em objeto de zombaria.” (HIRIGOYEN 2002:121)

O curioso a respeito dos apelidos é que mesmo alguns dos alunos mais contrários ao trote acabam aceitando seus apelidos e se apresentando por eles. Ainda que o apelido seja muito negativo, isto ocorre. A impressão que temos é que estes alunos não se dão conta de como o apelido pode atingir sua auto-estima. Ao agir assim, não percebem que estão, em última instância, sujeitando-se às normas sociais impostas pelos trotistas. Sua rebelião contra o trote não chega a rejeitar o apelido como prática perversa e degradante. Também não há consciência de que nomear é um atributo dos pais e mães. É a Grande Mãe institucional que acaba renomeando seus novos alunos.
Os nomes que identificam as repúblicas são outra curiosidade. Alguns deles são extremamente negativos (Pocilga, Lesma Lerda (Mesma Merda?), Tipo Zero (Te puseram?), Curva de Rio, Mata-Burro, etc.). Perguntamo-nos quais seriam os efeitos psicológicos de se morar num local assim identificado e, ao mesmo tempo, de se ter um apelido com os significados que indicamos.



      

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