Antônio Ribeiro de Almeida Júnior; Oriowaldo Queda Jornal de Piracicaba
A entrada na universidade é um fenômeno muito mais complexo do que pode parecer à primeira vista. A mudança de cidade, a liberdade para tomar decisões sobre a própria vida, a responsabilidade frente aos próprios atos, a escolha de um companheiro ou companheira, a necessidade de reconstituir a rede de relações sociais desfeita com a mudança de ambiente etc. fazem da entrada na universidade um momento difícil, cheio de incertezas e desafios. O problema é que há uma espécie de “cultura do trote”, pela qual ninguém se responsabiliza, mas que afeta bastante a qualidade de vida dos alunos de primeiro ano. Mas, quem são os responsáveis pela “cultura do trote”?
Há vários responsáveis. Por exemplo, a maioria dos colégios, cursinhos e seus publicitários não se preocupam muito com as imagens do trote que veiculam na mídia. Não há um tratamento crítico do trote. Eles utilizam imagens de alunos pintados, com o cabelo raspado etc. nas suas publicidades. Nestas imagens, o trote é mostrado como um momento de alegria, de comemoração. Talvez muitos colégios e cursinhos não vejam como sua responsabilidade aquilo que vai ocorrer quando o aluno chegar ao ensino superior, mas o fato é que estão estimulando o trote.
A universidade também não tem feito esforços suficientes para conter e reduzir o problema. Sua imagem pode ser afetada se, com uma discussão mais séria sobre o trote, revelar-se o que se passa com os alunos de primeiro ano. É verdade que várias universidades proibiram o trote, como é o caso da USP. Mas, desacompanhadas de processos educativos e de sanções, estas proibições não produzem muitos efeitos e, na prática, o trote continua. O Estado também tem promulgado algumas leis proibindo o trote. Elas visam apenas o chamado “trote violento”, abrindo espaço para o chamado “trote brincadeira”. Para nós todo trote é violento e deve ser banido. Outro equívoco da lei é deixar espaço para que o consentimento seja invocado como defesa dos que aplicam trote. Por isto e por outras deficiências, estas leis ainda não conseguiram produzir uma redução significativa dos problemas. Apesar disto, elas são úteis e demonstram a inquietação crescente da população com o assunto. Sobrecarregadas por outras demandas, as polícias e a justiça permanecem distantes deste problema, atuando somente quando os fatos são gravíssimos.
Entre os professores, há alguns que apóiam de uma forma ou de outra o trote, chegando a expressar publicamente suas opiniões. Há também aqueles que julgam que o trote é um problema menor, fora de seus interesses e pouco importante. Evidentemente, existem também aqueles que trabalham contra o trote.
Algumas empresas também têm se envolvido com o assunto do trote, por exemplo, estabelecendo prêmios para escolas que promovem o “trote cidadão”. Como se trote e cidadania fossem compatíveis. Em alguns casos, elas acabam premiando grupos de alunos fortemente ligados ao trote. Tais alunos utilizam esta premiação como sinal de que não o praticam ou de que o trote é apenas brincadeira. Assim, percebemos que para combater o trote não bastam nobres intenções. A necessidade de conhecimento sobre o assunto se impõe. Sem este conhecimento, corremos o risco de reforçar aquilo que queremos combater.
Mas, pasmem: há pais e mães que pregam o trote. Por terem dele participado, julgam que seus filhos também devem passar por isto. Eles pregam a velha história do oprimido lutar vigorosamente para alcançar o direito de se comportar como opressor. Querem que o trotista acabe se tornando o modelo para o ingressante. Estes pais e mães talvez imaginem que o filho rebelde finalmente será colocado nos trilhos. Não percebem que a sociedade se transformou. Não percebem que os níveis de violência na sociedade e a tolerância das pessoas mudaram. As cidades cresceram e com elas cresceram também os temores. Claro que há pais e mães mais conscientes e que buscam aconselhar seus filhos de forma apropriada.
Entre os alunos reina a confusão. Para parte deles, há uma naturalização do trote. Ele é tratado como algo que deve acontecer de uma forma ou de outra. Mesmo entre os que se opõem ao trote, há ambigüidade, falta de reflexão, falta de compreensão e desorganização. Os únicos organizados parecem ser aqueles que querem dar trote. Estes promovem festas, organizam-se em repúblicas, ocupam diretórios e centros acadêmicos sem que haja muita reação às suas atitudes. Talvez acreditem estar realizando algo que não é assim tão problemático.
Por tudo isto, em relação ao trote, parece necessário uma mudança de atitude que alcance alunos, pais, mães, professores, funcionários da universidade, dirigentes de colégios e cursinhos, dirigentes das universidades, empresários, autoridades de segurança pública, justiça, governantes, enfim, todos os cidadãos.