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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010 - 20:54   

Artigos

Poesias sobre o trote - Glauco Mattoso

Glauco Mattoso
*

O TROTE COMO MOTE
(por Pedro Ulysses Campos*)


Em 1985 Glauco Mattoso lançou o ensaio monográfico O CALVÁRIO DOS
CARECAS: HISTÓRIA DO TROTE ESTUDANTIL, que assim comentei em seu sítio
pessoal:

[...] "No livro, Glauco não se refere à sua própria experiência
(retratada nos sonetos "Estudantil" e "Superior", bem como no romance
autobiográfico MANUAL DO PODÓLATRA AMADOR); preocupa-se, isto sim, em
rastrear o costume dos veteranos e calouros através de documentos de
época, desde a Idade Média, quando todos os textos eram produzidos em
latim decadente. Independentemente dos propósitos maliciosos de Glauco,
o CALVÁRIO é interessante até do ponto de vista poético, pois resgata
testemunhos versificados como os que se seguem".

Confiram-se abaixo os sonetos mencionados, alusivos ao que Glauco
vivenciou nos anos 70, mais um outro que alude ao trote nos Estados
Unidos e três que analisam usos entre alunos de agronomia na ESALQ, em
Piracicaba. Segue-se aos sonetos uma transcrição do trecho em que O
CALVÁRIO DOS CARECAS aborda o trote em Portugal, tradição que influiu
diretamente no costume brasileiro e se transferiu das arcadas de Coimbra
para as do largo de São Francisco. A antiga ortografia dos versos
portugueses foi preservada.



SONETO 52 ESTUDANTIL [1999]

O trote é tradição na academia,
mas já foi mais cruel na Idade Média.
A vida de calouro era a tragédia
do "escravo", enquanto o "dono" o usava e ria.

Sofri na própria carne essa agonia,
porém contrariei a enciclopédia
no dia em que tramei uma comédia
fingindo entrar naquela engenharia.

Calouro disfarçado, fui tratado
que nem um bicho, a chute, "Xô!" e chicote,
lambendo o veterano pé suado.

É claro que não fiz nenhum fricote!
Assim é que eu queria ser usado!
Fui eu quem lhes passou o maior trote!


SONETO 357 SUPERIOR [2000]

Chegando à faculdade, me deparo,
ao vivo, com o trote. Não na minha,
porém na engenharia, ali vizinha.
Calouros nesse tempo pagam caro.

Um tipo de engraxate não tão raro
os fazem performar: um deles tinha
que usar a língua em vez da flanelinha!
A cena me desperta o velho faro.

Disfarço-me de bicho e, noutro dia,
misturo-me aos demais, até ser pego.
Agora virei alvo da folia!

Engraxo o veterano mais labrego,
lambendo-lhe a poeira que cobria
os tênis. Mas, fingindo, peço arrego...


SONETO 350 INFERNAL [2000]

Nos Estados Unidos, trote é barra.
Calouro lá está abaixo de engraxate.
"Lasciate ogni speranza, voi ch'intrate!"
Quem entra em faculdade é boi na farra.

Rasteja em mijo e lambe o chão na marra.
Careca e "maquiado", gane e late,
de quatro, aos pés do "dono", que lhe bate
e, boca adentro, cospe, esporra, escarra.

"Hell week" é como chamam a semana
durante a qual novatos são vassalos
enquanto o veterano os atazana.

República é "fraternity", e chamá-los
de irmãos, alegoria americana,
não é trote, é galope. São cavalos.



TRÊS SONETOS ESALQUIANOS:


SONETO 647 AMESTRADO [2003]

Defronte aos acadêmicos vitrais,
enquanto outros calouros, na chegada,
dispunham-se a sofrer "ralo" e "chispada",
tratados como "bichos" e animais,

um deles, que deixara longe os pais,
não quis ser boi na farra e cão de cada
folgado veterano que lhe brada:
"De quatro! Late! O rabo! Abana mais!"

Escapa e se recusa, mas mais tarde,
sem vaga na república e sem clima,
de falso herói converte-se em covarde.

Já manso, a rebelar-se nem se anima.
Apenas cumpre, e lambe sem alarde
a sola do "doutor" que está por cima.


SONETO 648 DOUTRINADO [2003]

Cantou Piracicaba inteira o caso
do "bicho" que do trote se esquivara.
Pouquíssimos, porém, sabem que o cara
agora abaixo está dum reco raso.

Embora uns tratem trote como atraso,
ou rito de passagem, ou só tara,
o fato é que nenhuma tese aclara
um tema envolto em cúmplice descaso.

Se alguém, como o tal "bicho", resistia
à idéia de engolir escarro ou mijo,
lavagem cerebral o anestesia.

Entendo-lhe o segredo, e não exijo
que queixe-se ou questione, já que um dia
será, como "doutor", tão duro e rijo.


SONETO 649 DOMESTICADO [2003]

Recém-chegado, o "bicho" verifica
que vai passar por trotes humilhantes.
Aceito é na república, mas antes
será feito de cão, no que isso implica:

Andar de quatro e nu, solada e bica
levando a toda hora; ouvir rompantes
e gritos dos "doutores"; repugnantes
porções comer no chão qual ração rica.

Chinelos ao "doutor" levar na boca;
lamber-lhe os pés descalços e o sapato;
ganir de muita dor; graça, achar pouca.

Latir, abanar rabo e inda ser grato;
rosnar jamais; bem alto e com voz rouca
jurar que é "bicho" e escravo dum pé chato.



[extrato de O CALVÁRIO DOS CARECAS]

Vistas as fontes históricas, verifica-se que, tal como sucedeu na Europa
medieval, o trote lusitano aparece mais pitoresco e pormenorizado nos
depoimentos autobiográficos e nas composições literárias. Quanto a
estas, dispomos duma singular preciosidade, o célebre PALITO MÉTRICO
anteriormente citado. Trata-se duma coletânea de poemas macarrônicos e
herói-cômicos, misturados a cartas e "recomendações" em prosa. A autoria
é incerta, mas seguramente não são todas as peças do mesmo autor. O mais
provável é que estejamos diante duma compilação de textos anônimos de
diferentes épocas, mais ou menos contemporâneos do Rancho da Carqueja e
das provisões reais, já que a primeira edição do PALITO data de 1746. Em
todo caso, a maior parte dos poemas ali inseridos é atribuída a um
presbítero secular, o padre João da Silva Rebello (1710-1790), que seria
o responsável pelo pseudônimo Antonio Duarte Ferrão constante do
frontispício. São inúmeras as edições do PALITO. A de 1942, organizada
por Rocha Madahil, é das mais fiéis e completas. A de 1912 serviu-me de
fonte para as transcrições.

O PALITO se divide em várias partes. Na primeira, intitulada MACARRONEA
LATINO-PORTUGUEZA, o que fascina os pesquisadores é o colorido da
linguagem. Antonio Maria do Couto considerou o PALITO superior às
composições de Scarron, Tomás de Yriarte e à "sublime macarrônea
italiana" (Tifi Odasi, Folengo, etc.). Alberto Pimentel, nos POEMAS
HERÓI-CÔMICOS PORTUGUESES, diz que "em verdade, raro era o estudante
que, principalmente em Coimbra, não sabia de cor trechos do PALITO
MÉTRICO ainda nas primeiras gerações acadêmicas do séc. XIX". Camilo
Castelo Branco chegou a munir-se dum MAGNUM LEXICON para ler e traduzir
os poemas latinizados, e elogiava o tal Ferrão como um latinista sem
rival na sua especialidade.

Para nós o que interessa aqui é a temática. Gira toda ela em torno das
praxes acadêmicas, onde o calouro volta e meia está na berlinda. Graças
a isso podemos saber com alguma riqueza de detalhes como era o
tratamento reservado aos bichos em Coimbra. Embora não houvesse um
período de escravidão compulsória e ininterrupta como na França e na
Alemanha da Idade Média, o novato ou "louraça" estava permanentemente
sujeito às tais "investidas" ou "troças", a partir do momento em que
chegava à cidade para se matricular. O poema CALOURIADOS descreve a
investida de recepção ao calouro João Fernandes:

(...) Vixque ajustatum aluguele pagavit,
Cum algazarris hinc inde apupata rapazum,
Matriculorum chegat endiabrata caterva,
Et cum Calouro estalagine pousat eâdem.
Adque ubi louraçam bisparunt, protinus omnes
Fortunam louvare suam. Primo unus eorum
Pacifice envestit louraçam: illumque salutat
More logrativo, & verbis cortejat amicis.
Engolit louraça opium, adque anginhus iisdem
Comprimenta facit verbis: tum caetera turba
Rodeat miserum; truxque envestida começat.
Principio quatuor mandat aparare sopapos,
Et simul haud cessant miseri cuspire bigotes,
Donec sella chegat lumbo imponenda rebeldi.
Novatus cuidans se tunc estare Coselhis,
Respingat mandata: sui dominusque focinhi
Se facit ad bandam, nec vult aparare sopapos.
Illi indignantes, quod sic louraça reguinguet,
Multa reluctantem agarrant & corpora sellâ
Estirant: tum sella chegat, quam protinus anquis
Louraçae imponunt: illumque erguere parumper
Mandantes, brochant cilhas, freyumque Calouri
Encaixant boquae: alter peitorale fivella
Destrus abotôat: latam hic quadrilia circum
Accingit retrancam: alius chairéle superne
Concertat: louraçam omnes cavalescere cogunt.
Jamque novum turbâ circum agarrante ginetem,
(Namque escoucinhat) quidam saltavit in ancas,
Murzellumque chamat, pernisque açoitat ilhargas.
Ille choramingans, gemitu (nam fraena vetabant
Fallare) exposcit veniam, alcançatque petitam.
Tum sese apêat sessor, sellamque tiravit,
Et freyum. Jam se confessat ad omnia promptum,
Erguendo sursum digitum louraça trementem.
Et casum carpindo suum, velut una criança,
Per tristes adeò barbas chorabat abaixo.
Ut seixus, pedrasque ruae chorare fariat.
Moetorem veterani ejus, chorumque videntes,
Omnia perdôant, praeter mamare sopapos,
Atque bateculos, grossamque pagare patentem.
Post haec coena chegat; veteranum tota caterva
Accumbunt mensae, & mandant servire Novatum;
Nec deixant illum coenae provare migalham,
Aut pingam chincare vinhi: Novatus olhando
Stat, luzente oculo, & cheiro tantummodo gozat.
Amota mensa, variè jogatur; & omni
In jogo ficat semper louraça logratus.
Et postquam innumeros huic pregavére calótes,
Descalçare botas mandant, deitantur & omnes
In camis: louraça tamen taboaliter illam
Jussu horum passat noctem, compridior unquam,
Quâ sibi visa est nulla: & quae igualare podiat
Lamegui noctes: sed non cerraverat olhum
In tota. (...)

Ali estavam os principais ingredientes da troça: a agressão física, a
humilhação de ser reduzido a quadrúpede, montado e escarnecido, e o
banquete (pagare patentem) do qual o calouro só participa como anfitrião
e garçom. Na parte segunda, intitulada CALOIROLOGIA, NOVATOLOGIA,
PRAXEOLOGIA ACADEMICA E ACTOS ADDICIONAES, um soneto traça o perfil do
calouro e outro lhe prescreve os deveres:


PENSÕES, QUE CÁ EM COIMBRA
PAGA HUM CALOURO E HUM NOVATO
AOS VETERANOS

Não ter nome, senão o de Novato;
Ser logrado d'algum caramboleiro;
Soffrer o veterano companheiro,
Que delle faz talvez gato-sapato:

Em todas as funções pagar o pato;
Na meza tirar sempre derradeiro;
Comer, e beber mal por seu dinheiro;
Mammar de vez em quando um esfollagato:

Por dá cá aquella palha irem-lhe ao couro;
E quando os mais dão fogo á artilheria,
Não ser senhor de dar o seu estouro:

Levar na veia da arca huma sangria:
São pensões de hum novato, e de hum Calouro
Pelo foral da nossa Academia.


CONSELHO SAUDÁVEL A UM NOVATO

Será mui obediente ao Veterano,
Será no seu fallar muito encolhido,
E quando fôr (quod absit) investido,
Tudo executará com rosto lhano:

Se acaso ouvir dizer: "Fóra pastrano",
Vá andando, não se dê por entendido;
Porque o mais é mostrar-se comprehendido,
E além d'isso, arriscar-se a maior damno:

Se dos quinze de maio se vir perto
Sem que lhe tenha alguem montado em cima,
Póde pesar-se a cêra pelo acerto:

Mas de gabar-se d'isto se reprima;
Pois lá diz um ditado muito certo,
Que até lavar os cestos é vindima.


Mais adiante, um longo poema composto em oitavas rimas (atribuído a um
oficial da universidade designado pelas iniciais J.F.D.S.) intitula-se
SYSTEMA METRICO, MODERNO E EXPERIMENTAL, PARA USO DOS NOVATOS, QUE NA
UNIVERSIDADE DE COIMBRA QUIZEREM EVITAR OS INNUMERAVEIS ENGANOS E
CALOTES, A QUE ESTÃO SUJEITOS PELA SUA MISERIA. Vejamos algumas estrofes
onde se narra a invasão da casa dum novato pela horda veterana:

Logo a turba dos grandes mangadores,
Que se pôde ajuntar, concorre armada
A casa do Novato, nas melhores
Intenções de mangar industriada:
O Novato se toma de mil côres,
E vendo a casa toda rodeada
Da horrivel multidão, tem por desdouro,
Em tão grande funcção servir de touro.

Vê de uma parte o fero Alemtejano,
Que um pequeno papel lhe põe na testa,
Vê que d'outra o Minhoto deshumano
Com garrochas continuas o molesta:
Os olhos encaminha ao Veterano,
E por tantas injurias lhe protesta;
Porém ele lhe diz, que soffra tudo
Humilde, paciente manso e mudo.

Já o rude Algarvio apparecendo
N'um cavallo escholastico montado,
Notaveis cortezias vem fazendo
Dos ligeiros Capinhas rodeado:
Um vermelho murrião na fronte tendo,
Que o finge mais soberbo, e respeitado,
Faz no curro taes gestos de improviso,
Que a todos os mirões provoca o riso.

Chegando ao meio da soberba praça,
Supplica ao Veterano duro, e injusto,
Que licença lhe dê, para que faça
A sorte, que pretende, a todo o custo:
A venia conseguida, o manto traça,
E empunhando o rojão no braço adusto,
O Novato com tanta furia busca,
Como se fôra um touro da Chamusca.

Porem elle se anima na estacada,
Qual o manhoso tóuro irresoluto,
Que por mais que o rival lhe acena e brada,
A nada d'isto emfim se move o bruto:
Mas o bom toureador, que pouco, ou nada
Ignora as manhas do animal astuto,
Com tanta força encrava-lhe o rojão,
Que estendido o deixou como um cação.

Tal succede ao Novato, que indeciso
Deixando-se ficar no chão prostrado,
Observa a seu pesar o grande riso,
Com que o seu Toureador é festejado:
Assim que se levanta, de improviso
De um rustico Beirão se vê montado,
Que a repetidos golpes de um chicote,
Por toda a sala o faz correr de trote.

Não tanto o Picador as manhas tira
Por violencia do açoute, e mais da espora,
Ao pôtro, que jamais a sella vira,
E as leis do freio totalmente ignora:
Como o Beirão o amúo despedira
D'este infeliz, ao qual melhor lhe fôra
Ser o pôtro mais vil da picaria
Que Novato na nossa Academia.

Um lhe chama asneirão à bôca cheia,
E lhe inquire se acaso a sua terra
Será alguma montanha, alguma aldeia,
Ou seu Pae é pastor de alguma serra:
Outro lhe imputa tudo o que na ideia
De injurias atrocissimas encerra:
Outro lhe faz a affronta mais amara,
Pois lhe chega a escarrar na própria cara.

Com taes exhibições solemnemente,
E outras muitas tambem, que agora omitto
Em cuja narração precisamente
Havia de gastar tempo infinito;
Se festeja um Novato, que innocente,
Depois de soffrer quanto tenho escripto,
Ainda paga o dôce, que não come,
Porque a turba voraz tudo consome.


Mais uma vez se nota o hábito de fazer do calouro montaria, para em
seguida obrigá-lo a custear a gula dos veteranos. Particularmente
curioso é o momento em que se emprega a palavra "trote" numa acepção
quase que intermediária entre o sentido real português e o figurado
usado no Brasil. [...]

///

(*) Pedro Ulysses Campos, crítico e ensaísta carioca, é professor na
UERJ. Autor de APÓSTOLOS E APÓSTATAS (1999) e GENEALOGIA DA POESIA
(2002).

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