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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010 - 20:32   

Artigos

Trote e instituições trotistas

Antônio Ribeiro de Almeida Júnior; Oriowaldo Queda
Trote na Esalq

Com esta análise sobre o trote, esperamos contribuir para o entendimento da violência praticada por jovens universitários e das dinâmicas institucionais que alimentam esta violência. Para que não se repitam as cenas trágicas, provocadas pelo trote, muitas coisas precisam ser feitas e decisões sérias precisam ser tomadas. Para eliminar, de modo duradouro, os comportamentos que sustentam o trote, a educação para a cidadania dos jovens universitários é fundamental. Precisamos também romper com a convicção de que as transgressões realizadas, por jovens de elite ou que almejam pertencer a ela, não devem ser punidas e nem mesmo analisadas. Mas, como tentaremos mostrar, é a modificação da postura institucional o elemento chave para a eliminação do trote.
Na verdade, os problemas causados pelo trote não são novos. No Brasil, a primeira morte registrada, em conseqüência do trote, ocorreu em 1831. Desde então, a prática do trote não cessou de causar vítimas. Há ciclos nas atividades trotistas: em alguns momentos, o trote recrudesce, uma nova tragédia ocorre e ele ganha uma dimensão pública, sendo coberto pela imprensa. Tais situações levam à adoção de medidas que pouco diminuem os problemas. Mesmo assim, como resultado, as consciências são aplacadas e o assunto é esquecido. Os trotistas divertem-se afirmando que o trote está acabando e que o melhor a fazer é não falar em público sobre ele.
Quase sempre, nestas situações de crise, os trotistas fazem mais do que isto e propõem formas alternativas para resolver o problema, tais como o trote cidadão, o cultural, o ecológico, o assistencial (coleta de alimentos e roupas, doação de sangue, doação de material escolar, etc.) e outras campanhas que não fazem muito sentido (“trote opção”, “trote coração” e “bicho também é gente”, por exemplo). Existe pouco conhecimento sobre o trote e sua relação com as instituições universitárias. Talvez por isto, muitas pessoas de boa vontade acreditam que, ao propor estas alternativas, estão realmente contribuindo para combater o trote. Estas pessoas são parte importante nos processos institucionais de manutenção do trote, pois elas dão credibilidade a estas campanhas.
São inúmeras as campanhas que têm sido propostas com a finalidade de acabar com o trote. Se aceitarmos este objetivo como verdadeiro, teremos de admitir que elas não funcionaram bem, pois o trote continuou. Mas, quando questionamos a veracidade deste objetivo, podemos descobrir a existência de outras finalidades para estas campanhas. Por exemplo, podemos perceber que elas exercem muito bem o papel de desviar a atenção dos problemas causados pelo trote. Ao questionarmos este objetivo, começamos a entender que esta violência é cuidadosamente mantida pela instituição. Avaliando as campanhas desencadeadas pela morte do aluno da Faculdade de Medicina da USP, Antônio Zuin faz o seguinte comentário:

“Paradoxalmente, as próprias campanhas, que possuem a intenção legítima de criticar a existência do trote que tem como principal característica a fruição sadomasoquista, por meio das afrontas cometidas contra os calouros, acabam por contribuir para o recrudescimento de clima cultural simpático à agressão.” (Zuin 2002:34)

O paradoxo, apontado por Zuin, revela-se como mera aparência de uma situação na qual o trote é mantido, desempenhando tarefas consideradas importantes por certos dirigentes universitários. Evidentemente, nem todos os dirigentes universitários são favoráveis ao trote ou agem de modo a mantê-lo. Mas, há um grande número deles que dá sustentação ao trote. É destes dirigentes que tratamos neste texto. Sua ação não pode ser atribuída à ignorância, sem ferir seus brios intelectuais. Antes, contudo, vejamos mais de perto como o trote tem sido pensado.

Interpretações correntes sobre o trote

Os textos sobre o trote costumam utilizar uma de três interpretações consideradas excludentes entre si. A mais comum é aquela que trata este fenômeno como rito de passagem. Outra possibilidade é uma interpretação psicológica. E, por fim, existem autores que pensam o trote como relação de poder. Apesar da sensação de entendimento e de conforto que estas vertentes interpretativas produzem, talvez elas não sejam, quando utilizadas isoladamente, capazes de resolver os enigmas psicológicos e sociais que o trote propõe. Em nosso ponto de vista, estas três interpretações precisam ser integradas numa explicação que supere as falhas que cada uma delas apresenta.
O trote é um fenômeno multidimensional. Ele envolve: aspectos da personalidade de seus praticantes e daqueles que convivem num ambiente onde o trote é importante; a integração ritual num clube trotista; e relações entre pessoas e grupos com poder desigual. Em outras palavras, ele envolve dimensões psicológicas, culturais, políticas, econômicas, sociais, religiosas e institucionais. Portanto, julgamos insatisfatórias as explicações que tentam analisar o fenômeno do trote com instrumentos de uma única disciplina científica. A falta de uma interpretação mais elaborada a respeito dele pode ser uma das razões para a sua continuidade.
Para explicar o trote, precisamos utilizar categorias que emergem da realidade. São estas categorias que possuem a capacidade de unir as correntes interpretativas existentes. Isto geralmente não ocorre, pois as interpretações ficam coladas a teorias que apresentam alto grau de abstração. Por meio de processos dedutivos, as teorias culturais, psicológicas e sobre o poder são transformadas em interpretações a respeito do trote. Estas interpretações não são confrontadas com a realidade. Em larga medida, elas permanecem como simples hipóteses. Um grande número de pessoas fica feliz com essas hipóteses e poucos se dispõem ao confronto com os trotistas que, em certas situações, tornam-se bastante agressivos. Poucos consideram o trote um problema digno de atenção. Os pesquisadores da educação não se preocupam muito com o assunto; há dirigentes universitários que julgam perder muito tempo para tratar do trote. Existem exceções, algumas brilhantes, mas elas apenas confirmam a regra.
Para explicar a dinâmica do trote, buscamos integrar os elementos levantados pelas três interpretações supracitadas . Não desprezamos os aspectos realmente explicativos delas, mas queremos também apontar alguns de seus limites. Por exemplo, reconhecemos que há elementos de um rito de passagem no trote, mas queremos mostrar que este rito não é para a entrada na universidade. Ele é um rito de passagem para a entrada num clube trotista. Muitos dos que ingressam na universidade acabam ficando fora dele. O trote só tem o caráter de integração quando os alunos desejam entrar neste clube. Este desejo talvez seja o principal motivo consciente que os faça aceitar as evidentes humilhações que o trote implica. Por isto, os que sofrem o trote, em geral, não denunciam ou até fazem declarações que favorecem os trotistas. Muitas das explicações teóricas sobre o trote não consideram este desejo de entrar neste clube e falam apenas de opressão e de masoquismo, por exemplo. Elas ignoram a sensação de onipotência produzida pelo pertencimento ao clube trotista, pela possibilidade de dominar outras pessoas e pela conivência institucional.
Reconhecemos assim que há elementos psicológicos no trote. Certas personalidades conseguem adaptar-se melhor às situações criadas pelos trotistas. O narcisismo e a preocupação com a imagem pessoal e institucional são evidentes. Eles são ingredientes importantes das organizações com culturas trotistas. Incontestavelmente, nas atividades dos trotistas, o sadismo e o masoquismo de alguns também estão presentes. Para lidar com os sentimentos produzidos pelo trote, o uso de mecanismos inconscientes de defesa é freqüente por parte dos envolvidos – sejam eles alunos, familiares, professores, funcionários, dirigentes, jornalistas, etc. Por exemplo, a identificação de alunos do primeiro ano com os trotistas; a idealização da instituição pelos alunos, familiares e dirigentes e a negação da existência de problemas causados pelo trote no discurso dos dirigentes. O trecho abaixo mostra mais algumas dinâmicas psicológicas envolvidas no trote:

“No caso dos trotes, parece prevalecer, nesse processo de aproximação e de distanciamento do outro, a internalização de atributos que condizem com o incentivo à projeção da libido nas representações daqueles que já são identificados como membros do grupo. Já os que são identificados como não-participantes tornam-se alvo da exteriorização da agressão, que teve de ser internalizada durante o desenvolvimento do trote feito no próprio curso. É como se fosse propiciada aos calouros de Física uma oportunidade de desforra imediata da dor e da humilhação que tiveram que suportar em silêncio. Legitima-se, apenas por um momento, a exteriorização dos desejos sádicos e, portanto, o calouro não precisa esperar até o próximo ano, quando será um veterano, para poder descontar a humilhação a que foi submetido.” (Zuin 2002:50-51)

Mas, as explicações psicológicas do trote também têm seus limites. A falta de cuidado com aspectos institucionais do problema é um deles.
Nosso reconhecimento estende-se ainda às evidentes relações de poder que se estabelecem entre os alunos. Os trotistas possuem hierarquias tão rígidas como as hierarquias militares. Eles mesmos o reconhecem. Não temos problemas com esta interpretação. No entanto, não pensamos a relação de poder apenas como relação aluno-aluno, mas principalmente como relação instituição-aluno. Uma relação de poder que envolve também a família do aluno. A instituição de ensino aproveita-se do imaginário familiar para se promover. Em muitos casos, este imaginário é permeado pela competição, pelo individualismo, pela busca do sucesso que implica na exclusão do outro. Em lugar de romper com este imaginário e com o ciclo de violência que ele promove, a universidade o realimenta e o utiliza em benefício próprio.
Os problemas de interpretação começam quando apenas um desses três elementos é utilizado para explicar o trote. Nestes casos, o que ocorre é que a explicação torna-se tão incompleta que, em lugar de auxiliar no esclarecimento do fenômeno, ela o mascara, o distorce. O resultado é que aqueles que a propõe, por fim, têm de se submeter aos argumentos dos trotistas que contestam a interpretação. Estes problemas tornam-se ainda mais graves quando o próprio autor procura evitar a condenação do trote, manifestando-se, em certos momentos, favorável a ele.
Nossa explicação sobre a dinâmica do trote tenta sair do campo abstrato das teorias e mergulhar um pouco no universo empírico. Nossa pesquisa ainda é exploratória e como o trote é um assunto de grande complexidade, não foi possível avançar muito. Mas, achamos que esta explicação é capaz de questionar as considerações meramente dedutivas que têm sido feitas até o momento.
Mas, não é apenas no plano teórico que as interpretações do trote são insuficientes. Em muitas famílias, o trote é visto como o coroamento de uma luta para que o filho possa “ser alguém”, “ser diferente”. Como podemos perceber no texto abaixo:

“a pedagoga (sic) Ideli Lopes dos Santos fez questão de acompanhar o filho Vinícios em tudo. Pediu para que escrevessem ‘Poli’ na sua testa e tornou-se a sensação da festa de recepção dos calouros quando aceitou cair na piscina de tiro ao alvo. ‘Os pais participam de todo o processo do vestibular com o filho, por que não o trote?’, explicou. Ideli aprovou todas as brincadeiras que fizeram com o filho. ‘Está tudo muito organizado e sem violência .’” (Renata Cafardo, Estado de S. Paulo 19/02/02)

A organização da “festa de recepção” foi realizada por uma “empresa gerenciada pelos alunos da própria Poli contratada para organizar o processo e montou um ciber café para que os pais pudessem relaxar enquanto os filhos se registravam na USP.” (Idem) Neste cenário, não surpreende que o trote permaneça como se fosse um fenômeno natural.

Trote como técnica de controle social

Consideramos que o trote é uma técnica de controle social com a finalidade de implantar determinados tipos de cultura acadêmica. Para os dirigentes universitários, não é fácil comandar instituições com grande número de estudantes no final da adolescência. Aparentemente, este comando exige que se obtenha dos alunos a subordinação aos valores da instituição. Em outras palavras, o trote é um elemento socializador que recria ou seleciona as personalidades adequadas para a cultura da organização trotista.
Em geral, esta é uma cultura da autocongratulação. Ela funciona premiando seus próprios membros, dando a eles um reconhecimento acadêmico. Àqueles que se subordinam aos valores da instituição, são oferecidos diplomas, cargos, títulos honoríficos, placas de metal, menções honrosas, troféus, festas, quadros, fotos, espaço na mídia, enfim, homenagens de todas as ordens. Por meio das congratulações, cria-se a aparência de mérito para os representantes da cultura. Para a sociedade como um todo, este mérito parece ser real. Ele é transformado em algo real pela força social do grupo que se encontra dentro da universidade. Mérito este que é reconhecido, em primeiro lugar, pelas famílias dos alunos que amparam as pretensões da universidade, para reforçar a posição alcançada por seus rebentos. A cultura da autocongratulação é eficiente para produzir a estima pública e a valorização social da academia. Isto é ainda mais verdadeiro quando as situações degradantes do trote e de outras mazelas do mundo acadêmico são mantidas em sigilo por autoridades que, supostamente, deveriam investigar os fatos e punir os culpados.
Claro que elementos psicológicos interferem. Certas personalidades, que precisam da aclamação pública, irão esforçar-se para obter o reconhecimento do grupo. Estes esforços podem levar a verdadeiras contribuições científicas ou a ações institucionais relevantes. Assim, aqueles que pretendem explicar o trote apenas por meio do sadismo/masoquismo ficam em grandes dificuldades teóricas. Principalmente quando tentam construir esta explicação sem considerar as dimensões relativas à aceitação social que o masoquismo e o sadismo envolvem.
É a partir da consideração do trote como uma técnica de controle social que podemos entender o porquê de sua inserção na estrutura de algumas das principais instituições de ensino do país. Ele é utilizado pelos dirigentes universitários para produzir e reproduzir esta cultura da autocongratulação. Por meio do trote, espera-se incutir nos alunos uma profunda admiração pelas instituições acadêmicas onde eles estudam. Espera-se que o trote mantenha estas instituições livres de críticas contra suas atividades e, principalmente, contra sua produção científica. Uma crítica extremamente incômoda é não reproduzir a cultura, é recusar o exemplo trotista, encará-lo como um mau exemplo. O depoimento de uma aluna da Escola Paulista de Medicina, de 1976, revela que esta é uma das razões para a perseguição aos não trotistas:

“(...) Nessa primeira semana de aula o Centro Acadêmico resolveu fazer uma entrevista com um calouro para falar sobre as impressões da escola e casualmente me escolheram.
Na entrevista eu fui bastante honesta e coloquei toda a impressão que tive da escola, baseada nessa primeira semana de aula. Meti o pau em tudo, chamei todos de ignorantes, incultos, animais e não me lembro mais o quê. O jornal não saiu; quando foi em maio, quando a situação já havia sido totalmente transformada, que todos estavam amigos, todos haviam esquecido as barbaridades sofridas, o Centro Acadêmico soltou o jornal, como se a minha entrevista tivesse sido feita naquela ocasião.
A escola inteira ficou contra mim. Poucas pessoas na minha classe continuaram a conversar comigo. Sugiram as ameaças. Bilhetes dizendo que iam me esperar na esquina para me bater, pessoas dizendo que havia um grupo que estava comprando uma lata de piche para jogar em cima de mim, e assim por diante.
Um dia eu estava estudando na biblioteca e precisei sair um pouco; quando voltei, haviam desenhado um “pinto” (pênis) nas minhas coisas, dizendo que era o remédio que eu precisava.” (citado por Mattoso 1985:145)

Em alguns casos, a admiração pela instituição chega às raias da adoração, às raias da religião. Os tradicionalistas dizem-se filhos do fundador (pai) e da Escola (mãe), formando uma família. Por exemplo, num documento dirigido à Congregação da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) da Universidade de São Paulo (USP), o Centro Acadêmico, as Comissões de Formatura e a Comissão de Integração (diríamos “Comissão de Trote”) solicitam “a permissão para que os formandos em cinco anos e meio participem da Sessão Solene junto à turma que Colará Grau ao final de cinco anos”. Também retiramos deste documento as duas citações abaixo:

“A Sessão Solene de Colação de Grau da ESALQ é um momento mágico e único para aqueles que passam pelos Bancos desta Escola. É um momento onde todos os esforços dos anos que passamos pela nossa Escola são recompensados, e é onde sacramentamos nossa devoção à Luiz de Queiroz.” (...)
“Quando ingressamos na ESALQ, ‘rompemos’ uma ligação muito forte, que é a familiar, para ingressar na vida acadêmica, mas ganhamos uma nova mãe, nos tornando filhos da ‘Luiz de Queiroz’.”

Curiosa família em que a mãe é também filha do pai fundador. Há um verdadeiro endeusamento da instituição, da Grande Mãe institucional. O trote é um momento do sacrifício à Escola, Deusa devoradora de seres humanos. O sacrifício e o sangue de seus alunos produzirão seus frutos. Eles produzirão a cultura institucional que os dirigentes julgam necessária para a manutenção da “ordem”. A instituição torna-se um vício. Qualquer crítica a ela é sentida como ofensa à Grande Mãe. Em tal contexto, não é de se estranhar a fabulosa oralidade presente no trote (por exemplo, o excesso de bebidas).
Há uma relação entre o prestígio social das instituições acadêmicas e a violência do trote. O tradicionalismo invocado pelos trotistas tem duplo caráter: ele não diz respeito apenas às práticas do trote, mas também às tradições acadêmicas de suas instituições.
Se considerarmos o trote por esta perspectiva, entendemos porque ele permanece forte, apesar das muitas tentativas de proibição. Entendemos também porque, em certas instituições acadêmicas, não é difícil identificar trotistas ocupando cargos de professor e ou mesmo de direção. Entende-se ainda porque o trote, que é um rito de passagem para a entrada num clube, pode apresentar-se como um rito de passagem para a entrada na universidade. É a instituição que permite ao grupo trotista colocar-se como seu representante. De uma maneira completamente antidemocrática, os membros do clube trotista privatizam a universidade, excluindo o mais radicalmente possível aqueles que se opõem ao trote e à cultura da autocongratulação. Nas palavras de Paulo Denisard Vasconcelos:

“Em todas essas situações, o veterano tenta investir-se de um caráter de autoridade, ou ressalvar o seu status frente à população em geral, por estar numa instituição de ensino superior (na maioria das vezes, submisso à educação bancária, ouvindo um discurso monológico e coletando dados diante de um quadro negro, sem o menor uso de consciência crítica) por isso não é raro que alguns cursos com maior status na sociedade, reproduzam nas suas calouradas os trotes mais violentos. Expressa-se, assim, o espírito corporativo e estúpido dos que aplicam o trote, pois ao se acharem num lugar de ‘notáveis’, impõem um preço a todos os que quiserem ingressar na sua sociedade exclusivista.” (Vasconcelos 1993:36)

Sem a cobertura dada aos trotistas pelos dirigentes, o trote não sobreviveria. Esta cobertura não é oferecida ao acaso, por mera piedade para com adolescentes descontrolados. Ela é oferecida porque o trote cumpre um papel importante na formação e reprodução das culturas das organizações trotistas.
Há instituições nas quais o trote é central para a cultura. São aquelas que estamos chamando de instituições trotistas. Há outras, porém, onde o trote é um evento esporádico, sem maiores conseqüências. Nestas, há alunos trotistas, mas não propriamente um clube trotista bem estabelecido. Quando o clube existe, ele não tem grande influência na vida da instituição.
O trote é o ápice de um processo de seleção que começa pelo acesso desigual à educação por parte dos estudantes que passam no vestibular. As desigualdades, entre os concorrentes envolvidos nos processos seletivos, são vistas por alguns como elemento relacionado ao trote, o texto abaixo é um exemplo:

“É indispensável e urgente que se encontrem os adequados mecanismos de seleção para evitar que a elite econômica se sobreponha à elite intelectual. É necessário impedir que nas Universidades Federais não pagas, aumente o número de carros esporte nos estacionamentos enquanto se reduz o quociente intelectual de seus alunos.
A Universidade deve ser democrática no seu melhor sentido: oportunidade justa, aberta a todos os capazes, que, quando necessário e sigilosamente, podem ter suporte para o seu estudo. A Universidade não pode negligenciar a sua posição de elite intelectual, pois, não se conhece exemplo bem sucedido de Universidade não elitista no aspecto intelectual de seus componentes, nestes mil anos de história e experiência.
Às vezes parece um pesadelo que não me abandona, a fotografia na primeira página de um jornal do Rio, onde um vestibulando semi-nu joga dados, para ver, na sorte, a cruzadinha que deve marcar. Por isto é que não me surpreendem noticiários, como entre tantos, e agora, recentemente, sobre um aluno veterano, possivelmente selecionado pelo método de cruzadinhas, a pretexto de trote, matou a pancadas um recém-ingressado na Escola. Creio que não podemos ficar indiferentes a esta barbárie.” (Oliveira 1980:9)

O trote reforça as injustiças deste processo seletivo. O uso de práticas trotistas ajuda a identificar os alunos mais críticos, reflexivos e que não aceitam as imposições que o trote desencadeia. Estes alunos são considerados perigosos, pois eles podem expor os problemas existentes dentro das instituições de ensino superior e, com isto, ameaçar as imagens públicas das mesmas.
Entende-se, então, a preocupação dos dirigentes universitários quando o trote degenera em barbarismos que produzem feridos e vítimas fatais. Estas situações são difíceis de encobrir. Nelas, o trote acaba promovendo o contrário daquilo que é sua função, na visão dos trotistas. Ou seja, ele acaba produzindo danos à imagem, em lugar de produzir a estima social pela instituição. Por meio desta perspectiva, entendemos porque as tentativas de coibir as violências mais descaradas não podem chegar a desmontar completamente o trote. Nos altos escalões da universidade, assim como nos baixos, pensa-se que a prática do trote produzirá um grupo de pessoas dispostas a defender a instituição com entusiasmo. Um grupo cuja lealdade é indiscutível.
Mesmo que a universidade não cumpra suficientemente seu papel na produção de conhecimento, auxilie pouco no desenvolvimento socioeconômico, esteja subordinada aos interesses de empresas multinacionais, que muitos de seus melhores professores a abandonem devido às condições precárias de trabalho e que os alunos não saiam de seus cursos tão bem formados assim, nada disto importa ou deve ser revelado. Na visão trotista, é preciso defender a universidade; esta, apesar de todos os problemas, deve continuar a distribuir sinais de mérito, de distinção acadêmica e social. É preciso que se mantenha a boa imagem da universidade, mesmo que esta imagem não corresponda aos fatos. E, quando a imagem se afasta da realidade, é possível que o trote se torne ainda mais brutal.
Pelo mesmo raciocínio, entendemos porque as violências do trote são abafadas, se isto for possível. Mesmo quando os fatos não podem ser abafados, demora-se para investigá-los e para punir os culpados. Procura-se dar a impressão de que medidas punitivas e saneadoras estão sendo tomadas, mas tudo indica que se pretende apenas ganhar tempo e se afastar da discussão pública sobre o problema. O que importa é a imagem da instituição e não as suas vítimas. Afinal, todos os membros do clube foram também vítimas do trote e o silêncio é imposto a todos.
Não queremos afirmar que o trote é o único responsável por todos os problemas existentes na universidade. A interferência das empresas nas agendas de pesquisa, a determinação da grade curricular, a falta de recursos para a universidade, etc. não são causadas pelo trote. Ele é apenas um facilitador destes processos ao agregar um grupo de pessoas que levará adiante certas propostas para a universidade. Também não desconsideramos a competência técnica ou científica de alguns membros do clube trotista. O que questionamos é a forma autoritária com que eles querem impor seus objetivos, valores e comportamentos. Mesmo quando realizam uma ciência séria, os membros do clube trotista não são muito transformadores. Sua ciência é convencional, para não dizer, conservadora . Julgamos que o trote desempenha um papel importantíssimo na constituição e reprodução de culturas favoráveis a esta visão conservadora (talvez equivocada) de universidade e de ciência.
O outro elemento de nossa explicação é a constituição e manutenção de um clube de pessoas vinculadas ao trote, em cada uma das instituições trotistas. É este clube que vai encarnar a ideologia que dará sustentação à cultura da autocongratulação. É ele também que vai organizar e implementar o trote. A ideologia deste clube varia um pouco de uma instituição para outra, mas em geral, podemos dizer que ela é bastante rígida e autoritária. Em outras palavras, esta ideologia não é democrática e, principalmente, é intolerante a críticas feitas contra a instituição.
Uma vez formado o clube, o processo de reprodução da cultura ganha autonomia. Numa instituição verdadeiramente trotista, este clube tentará marcar presença na definição de seus dirigentes. Este clube também pressionará para que o dirigente não se desvie da ideologia trotista. A técnica de controle social implantada tende a limitar também as possibilidades de ação dos dirigentes. Quando existem pressões contra o trote, os dirigentes ficam encurralados. Eles sabem que os trotistas cometem violências que, uma vez tornadas públicas, causariam grandes danos à imagem institucional. Mas, ao mesmo tempo, recebem apoio do clube trotista e, às vezes, podem ser bastante dependentes deste. É neste cenário que os anseios de justiça das vítimas do trote precisam ser atendidos. Um discurso ambíguo é o resultado freqüente desta tensão. As ações contra o trote tendem a ser tópicas, na tentativa de se evitar que as denúncias aumentem.
Por exemplo, a mesma portaria que proibiu o trote na USP, manteve uma Semana de Recepção, na qual atividades trotistas podiam ocorrer. Nos últimos anos, o Jornal da USP tem feito a cobertura de muitas práticas trotistas que ocorrem na Cidade Universitária. Dentro do mesmo espírito de autocongratulações, foram concedidos prêmios para as unidades que promoveram as “melhores” Semanas de Recepção. Algumas das instituições premiadas são, reconhecidamente, trotistas. Em 2000, a própria Faculdade de Medicina ganhou o prêmio de “melhor” Semana de Recepção. Isto ocorreu antes que os culpados pela morte de um de seus alunos fossem identificados e julgados. O prêmio foi um belo esforço para limpar a imagem da instituição. Mas, será que houve real preocupação de se averiguar os fatos e resolver os problemas causados pelo trote? Nos dias que se seguiram à tragédia no Caoc, numa manifestação do então Reitor da USP, Jacques Marcovitch, não foi tal preocupação o que se prenunciou:

“É uma fatalidade a ser bem investigada. Mas, a meu ver, está claro que não houve conexão com o trote.” (Época, 01/03/99, p.40)

Na verdade, a ambigüidade do discurso e a ambigüidade da ação dos dirigentes não são fortuitas. Estas ambigüidades decorrem das situações enfrentadas e ou promovidas por eles. Por não ter sido contaminado pela ambigüidade, alguém de fora deste circuito foi capaz de concluir que:

“(...) estando afastadas, pelo laudo, as hipóteses de colapso cardíaco, consumo de drogas ou bebedeiras, que, seja por ação, seja por omissão, seja pelo clima geral de prepotência e intimidação, típico dos encontros entre veteranos e calouros, o brasileirinho Edison, como se afirmou no primeiro parágrafo, morreu de trote.
O que nos leva a outra conclusão – a de que chega de trote. Já cansou. Acumularam-se escândalos demais. (...)
Diante de tal panorama, alguns clamam contra o “trote violento”. É um equívoco. Como definir onde termina a brincadeira e começa a violência? A proibição tem de ser geral e irrestrita. Contra o trote, e pronto. Tolerância zero – este é o remédio.” (Roberto Pompeu de Toledo – Veja 21/04/99 p.154)

Se, para o Reitor, estava claro que não havia conexão entre a morte do aluno e o trote, por que logo depois o trote foi proibido? Por que concordar com a proposta de Renato Pompeu de Toledo? E por que não ir até o fim nesta concordância e, de fato, estabelecer tolerância zero para com o trote?
Geralmente, falta imaginação a muitos dirigentes universitários para encontrar meios de produzir uma cultura favorável à instituição, sem recorrer ao trote. A possibilidade de constituir uma cultura democrática parece algo arriscado. É ridículo, mas grandes instituições de ensino parecem temer pela sua sobrevivência, caso o trote seja eliminado.
Por meio da violência, o clube é encarnado em cada geração de alunos que chega à instituição trotista. A direção da instituição enfrenta dificuldades para controlar as ações do clube. Assim, há momentos em que os alunos que pertencem ao clube são mais violentos e outros onde há algum relaxamento. Por meio da incorporação de novos membros ao clube, a instituição trotista se apropria dos relacionamentos sociais dos novos alunos. Evidentemente, esta apropriação proporciona uma grande vantagem para a instituição. Deste modo, os alunos mais bem situados socialmente encontram facilidades para sua entrada no clube trotista. Espera-se que eles promovam a instituição na sociedade.
A existência de um núcleo ideológico favorável ao trote e à cultura da autocongratulação é outro elemento essencial de nossa análise. Isto é, a violência do trote é compatível com uma tolerância disseminada socialmente, que torna a violência algo “natural” e, portanto, “aceitável”. Esta banalização da violência torna os alunos insensíveis em relação às atrocidades cometidas nas práticas trotistas. Muitos alunos têm dificuldade de aceitar e dar-se conta de que cometeram ou sofreram violência durante o trote.
O núcleo ideológico do trotismo reproduz uma imensa gama de preconceitos que povoam a cultura brasileira. Os trotistas costumam revelar pouquíssima capacidade crítica em relação a estes preconceitos. A insensibilidade para com as minorias é algo muito marcante. As paródias que os trotistas fazem dos homossexuais são um bom exemplo do que queremos dizer. Os preconceitos contra a mulher , contra o trabalho manual, contra as etnias minoritárias e, em especial contra os negros, também são bastante visíveis. É como se os trotistas afirmassem: “sou enquanto outros não são, portanto sou melhor.”
As instituições trotistas costumam ter uma visão da educação superior como mera capacitação técnica, sem maiores preocupações com uma capacitação para a cidadania e para o convívio social. Nestas instituições, em geral, as questões sociais são afastadas dos currículos, comprometendo a capacidade crítica dos alunos. Muitos deles acabam incorporando esta visão. Eles tendem a julgar inadequada qualquer discussão que fuja de sua capacitação técnica. O medo institucional talvez seja de que esta capacidade crítica dos alunos possa voltar-se para a análise da instituição trotista. Sendo parte integrante de instituições de renome, este modelo de ensino é copiado por outras escolas.
No entanto, há outras possibilidades para o ensino, como as mostradas no texto abaixo:

“O Relatório Delors menciona quatro pilares a embasar o processo educacional na Comunidade Européia: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver junto e aprender a ser. Não basta transmitir conteúdos e metodologias de pesquisa às crianças e aos jovens, nem mesmo educa-los para maior autonomia intelectual, condição essencial para uma aprendizagem permanente.”
“É necessário prepara-los para viver em sociedade, respeitando regras que refletem a vontade codificada da maioria, atentos ao espaço e ao direito do outro e, sobretudo, embora os seres humanos tendam a supervalorizar suas qualidades e as do grupo a que pertencem e a alimentar preconceitos desfavoráveis em relação aos outros, capacita-los para saudar a contribuição de cada grupo social como enriquecedora do ambiente.” (Claudia Costin, Folha de S. Paulo, 21/11/02, p.3).

A falta de capacidade crítica facilita o caminho de certas propostas para a universidade. A naturalização das relações sociais, que é uma das características dos trotistas, torna o capitalismo brasileiro algo eterno e inquestionável. Assim, por exemplo, as intervenções das empresas privadas nos destinos do ensino superior são aceitas como normais e até desejáveis. Elas parecem ser pensadas como via única para o desenvolvimento das atividades da universidade e de sua pesquisa. O próprio questionamento desta via torna-se algo difícil. Há imensas dificuldades para se estabelecer um espaço de debates, um espaço público dentro da universidade.
Este núcleo ideológico afeta questões ligadas diretamente à formação dos alunos e às direções dadas às pesquisas. Vejamos o caso da ESALQ, onde nossa pesquisa empírica tem se desenvolvido. Nela, as preocupações ambientais ocupam um lugar secundário, se é que ocupam algum lugar. Elas deveriam ser o centro das atenções, dada a gravidade dos problemas. Mais uma vez, há exceções que apenas confirmam a regra, como o Curso de Gestão Ambiental e o Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ecologia de Agroecossistemas (ESALQ/CENA).
A identificação entre universidade e interesses do mercado é algo que tem sido questionado no mundo inteiro. O debate deveria ocorrer aqui também, em todo o ensino superior e, com mais razão ainda, no ensino público. As palavras de Carlos Lessa sugerem uma forma de questionar a educação voltada para o mercado:

“(...) A educação é um direito fundamental da pessoa humana, para que ela possa existir na plenitude de sua cidadania, na plenitude do acesso ao conhecimento e à socialização de seu tempo. (...) A idéia de que você cria empregos porque educa é de uma crueldade espantosa. (...) É necessário que alguém pense no futuro, além do mercado; alguém que pense além do horizonte imediato do interesse, do já e do agora.” (Lessa 2000:74 - 76)

Nas instituições trotistas, dadas as suas características culturais e ideológicas, este questionamento é particularmente difícil. A cultura da autocongratulação é voltada para o passado, para o reconhecimento de supostos sucessos já alcançados e não para o enfrentamento das transformações. Ela é contrária às críticas, é hierárquica e autoritária. A identificação dos desafios colocados pelas transformações envolve o diálogo, a capacidade de criticar os rumos atuais, de buscar novos caminhos e soluções. Em outras palavras, em grandes instituições, ela envolve democracia.
Este núcleo ideológico quase nunca é combatido nas campanhas contra o trote. Normalmente, nestas campanhas, trata-se apenas das violências mais danosas e visíveis, aquelas que produzem graves ferimentos físicos e até mortes. É bom lembrar que os incidentes mais graves ocorrem num ambiente construído pelas práticas trotistas consideradas “inocentes”. Por exemplo, antes de participar de práticas inegavelmente violentas, os alunos de primeiro ano se envolvem em atividades que são tidas como “lúdicas”, tais como: ter os cabelos cortados, ter o corpo pintado, cobrar pedágio, receber apelido, etc.
Claro que as práticas consideradas “mais leves” também causam problemas sérios. Por exemplo, em 2002, um aluno da Unisantos teve o abdômen perfurado por uma tesourada, quando se recusou a ter os cabelos cortados. Aqueles que participam destas práticas consideradas “mais leves” também são responsáveis pelos excessos. Eles criam o ambiente em que estes excessos podem acontecer. Portanto, a idéia de que não há responsabilidade coletiva é um equívoco. As campanhas tentam coibir apenas aquilo que elas classificam como “trote violento”, que geralmente ocorre em espaços privados, como nas repúblicas. As campanhas deixam de lado as práticas trotistas consideradas como “brincadeiras” (o corte de cabelo, a pintura do corpo, as fantasias, o pedágio, etc.). Paulo Denisar Vasconcelos dá a real dimensão do significado das “brincadeiras” praticadas pelos trotistas:

“Na pretensa brincadeira do trote o que ocorre é o oposto: o seu brincar é incapaz de uma criação original e, por isso, o brinquedo torna-se o próprio homem.” (Vasconcelos 1993:19)

Muitos dos responsáveis por estas campanhas incorporam idéias que fazem parte do núcleo ideológico e que sustentam o trote e a sua violência. De acordo com os valores pregados pelos participantes do núcleo ideológico, a violência começa grande e nada a precede. Nesta lógica, as tais “brincadeiras” não prenunciam a violência. Mas, ao tratar dos crimes de jovens de classe média, Claudia Costin nos lembra que:

“a delinqüência não começa grande. É, normalmente, precedida de inúmeros pequenos episódios de demonstração de valentia em que o outro, a vítima, sofre sustos, humilhações, ferimentos ou danos ao patrimônio resultantes de direção irresponsável de automóveis, pequenos furtos, brigas de gangues, desrespeito a policiais, ofensas a pessoas humildes ou portadoras de deficiência. A complacência da sociedade com estes pequenos ditadores, vistos como excêntricos ou dotados de graça, associa-se a questão da exclusão para conformar uma situação de profunda injustiça. Estamos criando monstros.” (Claudia Costin, Folha de S. Paulo, 21/11/02, p.3)

Agir assim, ignorando que as ditas “brincadeiras” precedem a violência, é uma forma de não enfrentar a questão, desviando a atenção e dando a impressão de que as campanhas, os dirigentes e os trotistas, que se limitam a tais “brincadeiras”, estão todos cumprindo seus papéis. Muitos dirigentes toleram o trote visível que ocorre nos Campi, como se ele não causasse problemas, nem tivesse relação com o chamado “trote violento”. A verdade é que dentro de vários Campi da USP, o trote ocorre livremente. Para constatar este fato, bastam as matérias do Jornal da USP sobre a Semana de Recepção. Embora seja mais difícil de ser enquadrado, o “trote violento”, que geralmente ocorre em ambientes externos aos Campi, poderia ser realmente punido se a direção assim o desejasse. Em parecer datado de 24 de novembro de 1999, a Consultoria Jurídica da USP afirma que a proibição do trote fora dos Campi:

“(...) é válida e pode ser aplicada pela administração no controle da conduta do corpo discente.”

Muitas pessoas imaginam que o trote é uma atividade que ocorre apenas entre os alunos. Ainda que um pouco antigo, mas apropriado para os dias de hoje, citado por Glauco Mattoso, o texto abaixo da revista Veja ilustra esta visão:

“Em Mogi das Cruzes, órgãos acadêmicos acusam a reitoria de nunca haver tomado nenhuma medida para coibir as violências do trote – em geral capitaneadas pelos veteranos que vivem a parte da política estudantil ou se opõem ao esquerdismo dos diretórios. A reitoria de Mogi certamente tem sido omissa, mas a acusação não leva em conta o fato de que o trote é território dos próprios estudantes – e a violência só pode se fazer, ali, com a cumplicidade de todos.” (Mattoso 1985:111)

Ao contrário da afirmação da revista Veja, o trote não é atividade que ocorre apenas entre os alunos. Ele também é uma atividade pertencente à instituição. Neste sentido, ele jamais poderá ser considerado uma opção pelo aluno. Como atividade institucional, não se trata de algo sobre o qual o aluno tenha arbítrio. Na melhor das hipóteses, será dada ao aluno a opção de se excluir do clube trotista. Ao fazer esta opção, o aluno poderá estar destinado a uma condição marginal dentro da instituição e, talvez, também dentro de sua família.
A direção tenta manter o trote na dose justa para obter a reprodução da cultura da autocongratulação e, ao mesmo tempo, evitar que o trote degenere em violências que venham ao conhecimento público. A direção anda na corda bamba, entre a violência publicada e o desmantelamento do processo de reprodução da cultura da autocongratulação. Por isto, há necessidade de se denunciar publicamente o trote e todas as suas implicações para a vida universitária e fora dela. A denúncia coloca grande pressão sobre os dirigentes universitários, exigindo que eles tomem atitudes que poderão desagradar o clube trotista. Consideramos que as instituições universitárias não devem alimentar-se da miséria emocional de seus alunos. Elas não devem explorar sua solidão, sua insegurança, sua necessidade de aceitação social, etc, para implantar culturas de autocongratulação. A universidade não deve estimular, em seus alunos, ilusões de onipotência. Ao contrário, ela precisa desencadear a construção da responsabilidade e do respeito pelo outro. A constituição de uma cultura realmente democrática dentro da universidade é algo urgente. O reconhecimento social das instituições acadêmicas deve ser fundado no mérito de suas realizações científicas e sociais e não em idolatrias irracionais e excludentes.



      

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