Antônio Ribeiro de Almeida Júnior; Oriowaldo Queda Jornal de Piracicaba
A cidadania pressupõe muitas qualidades individuais e coletivas. Entre outras coisas, um cidadão deve ter direitos que lhe garantam a expressão não violenta de suas opiniões e a ação, dentro da lei, para transformar em realidade seus sonhos. O cidadão deve possuir o mínimo de recursos necessários para que tenha alguma chance de concretizar seus projetos. A cidadania envolve a constituição de um ambiente cultural onde o respeito mútuo preserve a dignidade de cada um. Ela envolve ainda a capacidade de obter informações relevantes sobre os assuntos de interesse coletivo. Enfim, ela envolve a capacidade de refletir, de tomar livremente decisões e de se organizar para a busca de objetivos comuns.
Portanto, não espanta que a formação de cidadãos seja longa e contínua. Estes cidadãos devem ser capazes de desempenhar plenamente suas tarefas sociais. No Brasil, dadas as nossas injustiças e desigualdades, a maioria dos alunos que chega à universidade pública vem das camadas mais abastadas da população. Este é um motivo extra para prestar atenção à entrada na universidade, pois, ela pode afigurar-se como um momento importante para a reprodução das desigualdades e injustiças.
Geralmente, pensa-se que a entrada na universidade é mérito do aluno, resultado de suas qualidades excepcionais. Isto é verdade, mas não é toda a verdade. Entrar na universidade é o resultado da qualidade do ensino recebido. Claro que há exceções, mas a regra tende a ser: quem recebe melhor ensino tem maior probabilidade de entrar numa boa universidade. No caso brasileiro, o melhor ensino médio é o pago, oferecido pelas escolas privadas, e não o público e gratuito.
O trote aparece então como uma espécie de comemoração pela entrada na universidade. Uma entrada obtida com mérito, mas também relacionada com nossas injustiças e desigualdades. Tenta-se esquecer, mascarar, ignorar alguns dos reais motivos do sucesso no vestibular. Tenta-se esquecer que milhões de jovens não tiveram chances efetivas de estudar e de se preparar para este exame. Os que ficaram de fora da universidade são menos competentes do que aqueles que nela entraram, querem pensar aqueles que conseguiram ingressar num curso superior. Quando lembram dos excluídos, dos pobres, dos que não tiveram oportunidades, fazem ações assistencialistas – como o chamado trote cidadão - para talvez aliviar a consciência, para retirar do horizonte as responsabilidades sociais de quem entra na universidade em nosso país.
Estes alunos precisariam preparar-se para atuar num país com a nossa difícil realidade social. O exercício de suas funções profissionais exige o enfrentamento desta realidade. Mesmo que alguém venha a considerar essa cobrança como essencialmente moralista, a contribuição que cada um pode e deve dar para a solução dos problemas nacionais deveria ser debatida com estes alunos.
Ao impor uma hierarquia completamente irracional, o trote reforça, os já fortes, traços autoritários de nossa formação. Reforça crenças que podem levar ao mau tratamento dos que venham a ser entendidos como “inferiores”. No trote, os ditos “veteranos” acham-se “superiores” e, através desta suposta superioridade, julgam poder oprimir os alunos de primeiro ano, tidos como “inferiores”. Visto por este ângulo, o trote é profundamente contrário à cidadania. O tratamento igualitário e digno dos demais, os direitos, a primazia do coletivo sobre o individual, a redução das desigualdades são fundamentos da cidadania. Durante o trote, quantos direitos são violados? Quantos maus exemplos são perpetrados? Quantos futuros cidadãos são estragados?
A verdade é que trote e cidadania se opõem, pois este sempre implica em violação de direitos. A irresponsabilidade, o desprezo pelo social, o autoritarismo, a insensibilidade de muitos “profissionais” passam pelas crenças que estes possuem sobre o mundo social. Crenças que são formadas durante sua vida e, principalmente, em sua passagem pela universidade. Esta deveria questionar as crenças herdadas, valorizar os princípios éticos. No ensino superior, a própria suposição de que alguém possa ser pensado como “inferior” deveria ser combatida e não estimulada. Mas, quais crenças o trote instila? A crença de podemos tratar quem julgamos mais fraco com violência? A crença de que violência é brincadeira? A crença de que o mais fraco não se defende porque não quer? A crença de que podemos cometer crimes e permanecer impunes? Quais?