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Quarta-feira, 08 de setembro de 2010 - 20:54   

Artigos

O clubinho dos trotistas

Antônio Ribeiro de Almeida Júnior
Jornal de Piracicaba

Na ESALQ, os trotistas julgam-se acima dos outros estudantes, em condições de segregar aqueles que não se submetem aos seus ditames. Entre eles, há regras rígidas que devem ser seguidas. Os “mandamentos do bicho” são um exemplo ao ditar: “bicho não acha; doutor nunca foi bicho e bicho nunca será doutor”. Eles claramente procuram marcar uma desigualdade fundamental entre os ingressantes e os outros alunos, marcar a existência de uma hierarquia “vitalícia”, de uma condição de inferioridade e de superioridade. Para os trotistas, há muitas outras regras que precisam ser seguidas servilmente pelo aluno de primeiro ano. Talvez a principal delas seja que ele não deve, em nenhuma hipótese, revelar o que se passa nas orgias trotistas. Mesmo que submetido aos mais violentos trotes, ele não deve jamais denunciar seus algozes.
Mas, por que aceitar tais regras? Uma reflexão sobre o relato abaixo pode nos ajudar a entender a situação. Em março de 1993, Ruth Martins de Oliveira aplicou um trote especial, pois ela era “veterana” do curso de zootecnia no qual Adriana Martins, sua filha de 17 anos, estava ingressando. A mesma notícia informa que “a mãe não teve perdão: Ruth deu na filha um banho bem diferente daqueles que costumava dar na sua infância, ao qual não faltaram farinha e ovos.” A própria mãe explicou que: “Isto faz parte do ritual da universidade, e passar pelo trote significa ser aceita pelo grupo.” (Jornal da UNESP nº 72).
Recentemente, noticiou-se também que mãe e filho (ingressante) submeteram-se a práticas trotistas durante a semana de recepção aos alunos de primeiro ano na USP (Estado de S. Paulo 19/02/02). Por que alguém se submete ao trote? Por que alguém aceita as evidentes humilhações praticadas durante o trote e ainda afirma que tudo não passa de brincadeira, protegendo seus agressores? Não é fácil entender o que se passa. Vários caminhos podem ser tentados para explicar o fenômeno: perversão masoquista, opressão dos calouros, medo das ameaças dos trotistas, comemoração, passividade, inconsciência dos riscos, banalização da violência, cumplicidade, etc. Cada um deles desvenda uma parte da resposta, mas o fenômeno é realmente difícil de deslindar. Neste artigo, queremos sugerir um caminho alternativo de explicação. Achamos que uma boa forma de entender a submissão ao trote é pensa-la como um pagamento para a entrada num clube. Explicamos.
Para aqueles que buscam aceitação em seu clubinho, as promessas dos trotistas são diversificadas. Por exemplo, na ESALQ, promete-se maior participação na vida estudantil, pois há bastante tempo os trotistas têm ocupado a maior parte dos postos relativos à representação discente (coisa que a Universidade deveria vedar aos trotistas); maior contato com os professores e os estágios; facilidades para a entrada no mercado de trabalho; uma vida de festas e diversões, inclusive com uma vida sexual mais intensa; popularidade; a possibilidade de oprimir outros alunos; enfim, a participação num grupo que se pretende de “elite” com poder político dentro e fora da escola.
A inclusão no clubinho exige várias coisas do candidato. A primeira delas é a aceitação incondicional do trote. Mas, isto não basta. No ano seguinte, é preciso que ele demonstre ter estômago para dar trote. Existem candidatos preferenciais para a entrada e para a exclusão neste clubinho. Os mais ricos, os pretensamente ricos, os decadentes, os mais enquadrados nos padrões de beleza da mídia, os mais preconceituosos, os alpinistas sociais, os competitivos, os violentos possuem mais chances de aceitação pelo clubinho. Os mais críticos, os que possuem uma visão de mundo alternativa ou de esquerda, os mais criativos, os mais pobres, certas minorias, etc. são candidatos preferenciais à segregação praticada pelos trotistas. Esta pode ir desde a violência aberta, passar pelas ameaças e chegar a elementos mais “sutis”, como não dirigir a palavra, não convidar para eventos e oportunidades.
Se existem vantagens na participação no clubinho trotista, por que não participar? Há muitos motivos para se ficar fora deste grupo: as promessas nem sempre se cumprem e muitas delas são meras fantasias; a tendência para práticas criminosas e que empregam violência física e psicológica; o elitismo e as ações preconceituosas; a falta de cidadania; as inclinações antidemocráticas; o desrespeito às opiniões divergentes; a incivilidade. Enfim, deve-se ficar de fora porque este clube parece demais uma máfia.
Muito se tem dito a respeito de ritos de passagem para tentar explicar o trote, mas é preciso repensar o uso desta explicação. Sem dúvida, há no trote elementos dos ritos de passagem. Por exemplo, os ritos de margem como o corte dos cabelos, o período de margem e os processos de reintegração. Contudo, este rito de passagem torna-se enganoso quando se tenta coloca-lo como parte de um processo de integração do novo aluno na universidade. As exigências do trote não levam à integração na vida universitária. Ao contrário, ele leva à divisão do corpo discente entre aqueles que aceitam ou não aceitam o trote. O processo de segregação destes dois grupos marca toda a cultura da escola.
Por isto, o ritual de passagem que tem sido vendido, pela mídia, pelos trotistas etc. como um ritual de toda a universidade é na verdade um ritual para a integração no clubinho trotista. Um ritual que visa integrar apenas aqueles que se submetem ao trote e que deles separa os demais que deverão ser marcados tanto quanto possível por não terem participado do trote.



      

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